quarta-feira, 15 de outubro de 2014

eu fico com a pureza da resposta das crianças

existem muitas maravilhas em ser professora.

a maior delas é poder estar em contato com o ser humano quase cru. e quando digo cru, não imagino uma página em branco, mas sim uma pessoa concreta que ainda não foi brutalmente alterada pelo mundo louco ao seu redor. ou que pelo menos ainda não tem consciência disso. acontecem tantas coisas lindas em sala de aula que eu acho que deveria fazer um blog só para relatar situações. mas enquanto isso não acontece, deixo aqui um pedacinho de magia real. 

"tenho uma turma de alunos com cerca de 5 anos de idade. não é nem de longe a minha favorita, porque -deixa eu te contar um segredo - não acredito muito em inglês nessa idade como curso extra e me dá uma dó daquelas crianças que poderiam estar fazendo qualquer outra coisa que não sentadas mais uma hora em sala de aula. mas os pais não pensam assim. enfim, dentre estes meus alunos que são fofos de morrer (ainda não decidi se quero uma filha Lívia, Luísa ou Laura, porque cada uma delas me contagiou de um jeito que não consigo me conter) tenho um que tem duas mães. 

isso mesmo, as mães são lésbicas. uma delas é musa do verão, cabelo loiro tingido perfeitamente, olhos verdes, corpo escultural. passaria fácil como modelo internacional. já a outra faz mais o estilo thammy gretchen, cabelos pretos estilo joãozinho, bermudão e muitas tatuagens. é a mais presente e um ser humano incrível. já reparei há um certo tempo que o filho delas chama a "menininha" de mãe, e a "homenzinho" de pai. acho incrível. 

no fatídico dia, meu aluno que aqui vou chamar de Lulu (entrando na onda do L), esqueceu a lancheira. a mãe bonitona de cabelo loiro comprido, voltou pra entregar enquanto a outra esperava afastada. beijinhos e lancheira entregues, uma outra aluna, muito esperta e sem deixar de pintar - o tema eram os cômodos da casa - perguntou, sem tirar os olhos do papel. 

_ ô Lulu, sempre quis te perguntar isso. aquela ali é sua mãe ou seu pai?
_ minha mãe! - ele respondeu, também com os olhos no desenho.
_ humm.. - a pequena continuou, desconfiada - e a outra?
_ ah... - ele coçou a cabeça e analisou o desenho. nesse momento o restante dos alunos também parou. pude ver que a curiosidade da pequena era na verdade, a do grupo inteiro - é meu pai. - e antes de encerrar o assunto acrescentou - e minha mãe também. 

a pequena jornalista permaneceu concentrada em seu desenho. e então, quando achei que a conversa já tinha acabado, retomou. olhando diretamente pare ele. 

_ Lulu, então você tem duas mães?
_ isso! - ele respondeu prontamente. também parou e olhou para ela. - e é como se as duas fossem meus pais também! 

 a sala ainda continuava concentrada na conversa, só um ou outro distraídos com qualquer outra coisa. e então, minha pequena ilustre menina me deu esse presente precioso:

_ ah, tá, claro. que legal! 

a turma toda concordou com a cabeça e ainda ouvi a moreninha falante do outro lado pedindo um lápis emprestado para o tal Lulu. eles continuaram seus desenhos, pediram mais jogos e disseram que estavam cansados. como se tudo aquilo fosse normal.eles são todos crus. eles acham tudo normal. "claro!", ainda ouço aquela vozinha dizer, os olhos girando, como se aquilo fosse uma coisa óbvia. vocês me entendem? que bom! eles me entendem!"

Feliz dia dos professores ;)

domingo, 21 de setembro de 2014

querido diário,

peço desculpas a todos que leem este blog na esperança de algum dia encontrar texto diferente. 

ando aparecendo aqui numa escassez cada vez maior, mas quando o faço é pra falar de amor, impreterivelmente. eu reconheço, deve ser entediante. você que lê essas linhas deve se perguntar se eu não tenho outro assunto pra desenvolver e se sou uma romântica inveterada chata como todos os meus textos dão a perceber. mas o fato é: eu tenho outros assuntos pra falar. outro dia mesmo, na sala de aula, uma aluna teve uma atitude tão bonita que eu registrei mentalmente pra depois digitar por aqui. e ainda, outro dia no trânsito, um pai e um filho no carro ao lado me fizeram criar uma história bonita que eu ainda tenho de cor pra escrever neste canto. mas quanto ao romântica inveterada... bem, isso sempre fui. quanto ao chata, se me tornei, disso não me desculpo. catei tantos cacos de vidros de amor que hoje erguer um castelo sólido de diamante tem consumido toda minha inspiração.

até porque, acho que essa minha inspiração na maior parte das vezes é realidade. 

me permita esse direito, caro leitor. vamos combinar, você já se apaixonou? deixe-me corrigir: você já foi correspondido no amor? então você há de convir que há poucas sensações à altura. eu definitivamente compreendi que não preciso de alguém para ser feliz, mas minha eterna parte de ser romântica inveterada afirma com categoria que viver feliz acompanhada é tão... sublime! a vida ganha mesmo outros tons de cor e momentos tão banais passam a ser tão incríveis que não dá pra fugir. esses dias mesmo eu descobri o quanto é delicioso não fazer absolutamente nada juntos. a companhia somente, maquiada por algum programa de televisão, visitas à sorveteria ou jantares despretensiosos. 

amar é descoberta constante. ou não, talvez isso seja a paixão. 

de qualquer maneira, neste final de semana descobri outras três coisas fabulosas. primeiro: como é delicioso curtir uma pista de dança com a pessoa escolhida. não estou falando de flerte na pista da balada, não estou falando do velho e bom dois passinhos pra lá e pra cá, praxe de qualquer casal. estou falando de duas pessoas felizes, curtindo o momento e se querendo com os olhos e deixando escapar pelos beijos e corpo a vontade. isso aconteceu há menos de 24 horas e já sinto saudade. segundo: como é bom poder trabalhar com o outro. cada um do seu lado do sofá com os seus afazeres, mas acompanhados um do outro. é mais uma vertente do fazer absolutamente nada juntos, dito lá em cima - que eu desconhecia. por fim, a terceira e última coisa é sem dúvidas a melhor de todas: como é bom dividir a mesma cama com alguém que a gente ama. o braço aqui, o enrosco da perna ali, o beijinho de boa noite e o encaixe do corpo até na bagunça do bom dia seguinte. eu nunca tinha experienciado isso em 24 anos e já me pergunto como farei pra conseguir pegar no sono sem aquele braço na minha cintura daqui duas horas. 

talvez a descoberta constante seja mesmo coisa da paixão. querer repetir as mesmas coisas, porém, todos os dias da sua vida...ah, isso sim há de ser amor. 

sábado, 13 de setembro de 2014

eu rabisco o sol que a chuva apagou

meu amor por você foi devastação.

se eu tivesse que fazer imagem de nós acho que seria uma cidade toda destroçada, prédios destruídos por todos os cantos, poeira no ar, blocos e cacos no chão. acho que seríamos algum pedaço do Iraque, Berlim, Vietnã talvez, Nova Iorque no dia do atentado às torres gêmeas. nem sei se eu era cidade inteira antes de você chegar, só sei que você já veio bombardeando, me pondo abaixo, explodindo e implodindo com seus tanques de guerra, lançando à esmo sua bomba de hiroshima em mim. e eu me rendi.
nunca botei um soldado sequer pra me defender, exército então, o que é? te deixei me dominar e assisti a cada queda abismada, achando beleza em cada vidro quebrado, a cada pedaço que ia ao encontro do chão. eu amei você imediatamente, loucamente, perdidamente...sem mente, só coração. eu não precisava ser inteira para ser feliz. traduzindo: eu te amei pelo que você era, no caos que te constitui, compreendendo e enxergando todos os seus defeitos e mesmo assim nunca te exigindo ser perfeito. te amei no erro, completamente entregue. eu largava o mundo, eu me largava, erguia os braços em meio à destruição - ainda que você continuasse com os atentados. não me importava com tudo aquilo que você jamais poderia me dar. foi um amor genuíno e tão puro e tão nunca mais. eu te amei no pó. e se tenho uma certeza nessa vida é de que nunca mais - leia de novo - nunca mais eu vou amar assim tão devotamente.

e isso porque se você me destruiu, ele me constrói.

se eu tivesse que fazer imagem do que eu sou com ele, eu seria campo florido, urbanização ecológica e consciente, crianças andando de bicicleta na rua, o avô sentado com a neta no colo enquanto pesca um peixe no rio limpo. uma chácara ali, uma padaria na esquina e o mais bonito dos prédios sendo levantado bem aqui. eu enxergo cada tijolo, a argamassa, os blocos prontos para serem colocados em união. poderíamos ser Porto de Galinhas, Amsterdam, Indonésia, o vilarejo de Marisa Monte e Arnaldo Antunes. o que ainda não fizeram no mundo.
a fusão da calma e da construção, me elevando e me levantando, me erguendo sempre para o céu. não há pressa e há naturalidade apesar de guiados por um planejamento quase minucioso. não há poeira, não há destruição, nem sei o que é caos. traduzindo: meu amor por ele tem razão de ser. ele é bom, ele é lindo, ele é correto, dedicado e cheio de caráter. é amor forte, ainda que leve e suave. amor-proteção. segurança no medo. e se eu tenho uma certeza nessa vida é de que eu nunca te amei assim. é isso mesmo, - leia de novo - eu nunca vou amar nem você nem ninguém assim. esse é o tipo de amor que fica.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

asas

há mais de ano atrás eu escutei que meu destino era ser águia.
 
ouvi que eu era uma borboleta que tinha se acostumado a viver como lagarta. ouvi que eu era o navio mais bonito do cais e que eu tinha escolhido um capitão que nunca me colocou pro mar. ouvi que eu era flor que não se deixava florear. resumindo, ouvi que eu não era o que eu tinha nascido para ser.
eu quase esqueci daquelas palavras, porque dentre tantas outras coisas me disseram que eu encontraria um grande amor logo e que ele já estava pronto pra mim, eu é quem tinha que me aprontar pra ele. ouvi que esse grande amor viria pela amizade e que me faria entender que tudo o que eu tinha vivido até então não passava de um ensaio, um rabisco torto e mal feito daquilo que eu viria a viver. ouvi ainda que esse meu grande amor não era galego e que ele tinha uma forte ligação com viagens.
 
bom, esse grande amor não chegava tão rápido quanto me disseram que chegaria. e a cada um que me aparecia eu entendia (com dor no coração) que ainda não era o dito: tem viagem envolvida, mas é galego. tá pronto pra mim, mas não temos laço nenhum de amizade. eles simplesmente não eram. nenhum deles me deixava sequer ter algum questionamento de que poderiam um dia se enquadrar e vir a ser. e então eu vi você.
 
parado, de costas naquele lugar que eu nunca iria em sã consciência comparecer. quem  não acredita em destino nunca parou de fato para o ver acontecer. nos primeiros minutos já dizendo tudo aquilo que eu queria ouvir um homem dizer. você estava pronto e eu -finalmente! - estava também. fomos nos (re)conhecendo e lembrei que só te conheci porque uma amiga me apresentou tantos anos atrás. laços de amizade reconhecidos. cabelos pretos, moreno e alto. nada galego. e o resto eu entendi com o tempo. você me liga sem eu pedir, manda músicas incríveis logo pela manhã pra me dar bom dia e me fazer sorrir, faz minha alma se encher de uma alegria enorme todo santo dia me fazendo entender o que é de fato ser feliz. você veio num dia sete e este sempre foi meu número da sorte.
 
e então, como quem não quer nada, eu me lembrei de todas aquelas palavras que eu tinha esquecido. do fato de eu ser águia, de ser borboleta, de ser navio no cais, flor no campo. você me abriu. você me mostra diariamente que eu tenho asas, aponta para elas e me incentiva a voar. você é o capitão certo que me colocou pro mar. você me faz olhar no espelho e desabrochar. você me faz viajar. me faz entender que dá pra ser feliz sozinha, mas que acompanhada é melhor ainda. você me olha nos olhos e não me diz que precisa conhecer o mundo. enlaça suas mãos nas minhas e diz me passando toda a confiança (e segurança e amor e paz): eu vou com você.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

onde você está

eu estou indo embora.

e quando eu olho para frente só vejo luz. é como se meu destino fosse florido, estampado feito aquela blusa que você chamava de cortina mas que eu tanto amava, pois me dava essa sensação de paz. a mesma que eu estou tendo agora. como se no meu futuro não tivesse inverno a não ser se eu pedisse dia frio pra dormir abraçado embaixo do cobertor. e outono só pra tirar foto bonita pra mostrar aos filhos mais pra frente. e comer fondue. mas todo o restante só flores, e ar fresco. praia, sol, areia fofa e sol que abraça.

um futuro de paz e amor e sol e só.

e tenho uma mão vazia. a outra acompanhada, pois há quem a segure. é isso mesmo, não vou sozinha. faço o meu caminho e por onde eu piso ele pisa também, pois é um caminho de dois do jeito que eu sempre sonhei. pare um pouco e imagine a cena. eu de vestido florido, ele de mãos dadas comigo, o sol fazendo sombra nas árvores, uma estrada limpa, vazia e feliz. não se esqueça da areia fofa. me achou? é neste momento que eu olho pra você.


sim, mais uma vez (talvez a última). olhando pra trás, onde você fica. onde a estrada é escura e onde o medo reside como cada grão de areia da estrada que me vai na frente. não vejo árvores, não há flores, o sol nem é palavra e praia é inexistente. só de olhar eu sinto frio e sinto dor e sinto todas aquelas coisas que será que um dia eu vou parar de sentir? será possível ainda hesitar diante de tamanha diferença? eu amargo o sorriso. eu não te enxergo e você não me vê. e mesmo assim eu quase me vejo correndo para o nada, para trás, para o medo, para o escuro. para você. 

sábado, 5 de julho de 2014

eu quero chorar feito um bebê

Nasci em São Paulo, 26 de setembro de 1989, por volta das oito horas da noite e com quase 5kg. Automaticamente, nasci com três estrelas no peito. Tri campeã mundial sem nunca ter piscado os olhos. Ou pisado num campo.
 
Naquele ano não teve copa, porém, no ano seguinte teve. Não importa, eu ainda não tinha completado nem um ano e não tenho memória nenhuma daquele instante. Mas teve copa em 94 e naquela época eu já estava com quase cinco e me lembro de algumas coisas, como o lance do Bebeto dançando o nana neném, ou do Romário todo moderno com aquele brinquinho. Lembro do Baggio perdendo o pênalti também e do Galvão Bueno gritando É TETRAAA, pulando descontroladamente ao lado do Pelé. Lembro da alegria nas ruas, das calçadas pintadas e do uniforme daquela copa. Ou não lembro, não sei, essas imagens já foram repetidas tantas vezes na televisão que pode ser que as tenha absorvido depois.

 
Mas a copa me pegou mesmo em 98. Eu era uma menina de 9 anos e o Neymar do meu tempo era Ronaldo. O melhor do mundo e o mais brilhante que fazia aquelas arrancadas incríveis do meio de campo e ia convidando pra dançar o vira um, dois e três jogadores do time adversário de uma só vez. Era um amor louco que foi crescendo e crescendo e cujo ápice foi atingido em uma semifinal Brasil x Holanda, onde fomos para os pênaltis, pois o jogo tinha terminado um a um. Eu não assisti nada daquele final. Foi ali que o amor louco, descontrolado e sem juízo pelo futebol e pela seleção, nasceram em mim. Sentei na salinha quieta dos meus avós e deitada em cima de uma almofada e com as mãos em prece rezando para que Deus (pelo amor de Deus!) ajudasse Taffarel naquelas defesas. Deu certo. Meu avô foi me buscar, quase me pegando pelo colo, enxugando minhas lágrimas e dizendo que ia dar tudo certo, estávamos na final! Seríamos campeões! E então eu chorava de alegria, vendo toda aquela agonia se transformar em uma certeza. Que não aconteceu. Todos sabemos, meu ídolo teve algum piripaque e não, nós não fomos campeões. Chorei feito criança, mas naquela época, eu ainda era uma.
(Nota importante: Não consegui superar aquela derrota até hoje. Meu ódio pela França foi tão grande, durante tanto tempo, que eu jurava jamais pisar em Paris. Consegui achar a Torre Eiffel feia e não entendia porque todo mundo achava ela tão maravilhosa, afinal, ela não era tão linda assim. O tempo me fez amadurecer, e hoje até passaria por lá, sem grandes problemas. Mas juro que se encontro com Zidane sou capaz de dar uma cusparada.)
 
Já em 2002 eu tinha meus 13 anos! Meu jogador favorito tinha recuperado o seu prestígio, mas muitos ainda duvidavam dele. Felipão não levou Romário e nossa seleção não era lá uma das mais favoritas. Mas meu coração estava cheio a cada vitória. Desenvolvi táticas especialmente neste ano. Quando sentei neste lado do sofá jogo passado, deu certo. Mãe! Deixa eu sentar aí! Se eu ficar com os membros cruzados consigo fecho o gol e se permaneço com as pernas abertas deixo o caminho livre para a minha seleção. Ronaldo sozinho na grande área, pai! Descruza as pernas! O que eu sou capaz de fazer para ter essa taça já que não posso entrar em campo e abalar todo mundo com o meu potencial? Sis, que tal ficarmos um mês sem pizza? Deu certo. Os lugares trocados no sofá, as pernas cruzadas e descruzadas, as promessas. Cravamos a quinta estrela no peito.

 
Não dá pra colocar em palavras o quanto fui feliz naquele dia. Por mais que eu tente, só os apaixonados por futebol e que viveram aquele momento me compreendem ou compreenderão. Naquela época eu era só uma menina e corrupção era apenas mais uma palavra, mas eu já entendia o essencial. Ser campeão mundial pela quinta vez fazia com que todo mundo (ou pelo menos grande parte) vissem o Brasil como eu sempre vi: com orgulho. Era todo mundo gritando nas ruas, o verde amarelo pintando uma nação inteira, carros buzinando por todo lado com uma felicidade que não cabia em canto algum. Meu carro estava naquela algazarra e ainda consigo lembrar dos olhinhos azuis de meu avô português marejados pela nossa 5a estrela. Chorei como criança ali, mas naquela época eu já era uma adolescente.

Não deu certo em 2006 ou 2010. Sucumbi aos desejos alheios na primeira copa e com 17 anos assisti a quase todos os jogos com os amigos e sua vibe negativa, maldizendo Ronaldo e não querendo trocar de lugar no sofá. Em 2010, também não deu certo. Meu pai estava trabalhando no dia da derrota e minha mãe me convenceu a ir até lá pra assistir o jogo com ele. Eu já sabia naquela época que não posso assistir copa fora de casa e aos 21 anos, lá estava eu, chorando naquela padaria. Um senhor melancólico, meio que para me consolar disse: "Filha, não chore não! Pense que você tem muitas copas para ver nosso Brasil ganhar. Esta pode muito bem ter sido a minha última." Chorei ainda mais apertado. Já era uma adulta e não tinha meu avô pra consolar.

Mas nessa copa, vai dar tudo certo. 2014 em casa, o Brasil todo unido porque todo mundo sabe que quando se trata de futebol somos os favoritos. Mas, para minha tristeza, nem todo mundo se empolgou feito eu. Misturam política com futebol e garantem que a Dilma é a dona da bola e que não vale a pena sofrer. Talvez. Jamais farei parte desse time e quase me desesperei no jogo entre Brasil e Chile (fica para o próximo post, ainda que com delay, porque aquele jogo é um caso a parte, caros amigos da rede globo!) e novamente no último ao ver nosso ídolo atual ser colocado fora da competição por uma entrada completamente criminosa.
 
Tá difícil. Nós todos sabemos. A Alemanha é osso duro de roer e passar pela Holanda e Argentina não será lá muito fácil. Mas a graça talvez esteja justamente nisso, nesse sofrimento louco que nos presenteia com uma gloriosa recompensa. Faz a gente valorizar mais, dar mais importância. Ter mais orgulho. Posso não ter certeza quanto à vitória, mas sei que já ganhamos da Alemanha uma vez e que Ronaldo ouviu duas vezes que não jogaria nunca mais, pra depois ser campeão do mundo. Sei que ganhamos uma copa sem Pelé. E sei que tenho uma 5a estrela no peito, assim como todos que nascem nesse exato minuto em solo brasileiro. Ou pelo menos até dia 13 de julho.

Chorei aos 24 anos em quase todos os jogos da seleção. Ao ouvir o hino nacional, ao ver gente se emocionando tanto quanto eu no telão. Você pode não entender os meus sentimentos, e se não entende, não se esforce. Não vale a pena. Você pode me perguntar: pra que tanto sofrimento? Mas sentimento não se explica e tenho pena de quem jamais vai entender. As lágrimas que quero derramar nos próximos dias são de pura felicidade e esse ápice quem não sente, não compreenderá. Eu tô na torcida feito maluca. Tem bandeirinha no carro, na unha, mas principalmente no coração. Tô prontinha, seleção. Aos 24 eu quero chorar que nem um bebê, por você.