sábado, 20 de fevereiro de 2016

meus homens ao mar

eu sempre amei o mar.

desde que criei consciência me sinto bem com cheiro de sal. na infância, passava horas procurando conchas, aproveitando a sensação de enfiar os dedos dos pés na areia. tudo me era curioso: as pernas de moça, as estrelas do mar, siris e corruptos. um universo à parte do qual sempre pertenci.

meu pai é o maior fã de mar que eu conheço. gosta das ondas, admira a calmaria de um mar tranquilo. "olha que piscininha!" ou "hoje o bicho está bravo!". não importa como o mar se apresente, meu pai o respeita. se fascina. foi na companhia dos pés de meu pai e na segurança de suas mãos que fui apresentada ao mar. foi sob seu olhar atento que peguei jacarés, furei onda. é naquela imensidão que melhor exercemos o papel de pai e filha. "vamos dar um mergulho?". a resposta sempre foi sim.

na adolescência comecei a achar no mar minha maior conexão direta com Deus. no vaivém de suas ondas passei a recarregar minhas forças, fazer pedidos, pedindo licença, agradecer. transformei-o em lugar santo. "livrai-me de todo mal, amém". minha igreja. 

e então eu o encontrei. o capitão que me tirou do cais, o meu amor em forma de paz. mal pude conter a empolgação a primeira vez que ele perguntou se eu queria entrar. "vamos dar um mergulho?". era ele! eu sabia que era ele! não à toa, dissemos nosso primeiro eu te amo recíproco dentro de um navio, sob aquela imensidão. e seguimos desbravando praias desde então, batizando-nos entre um beijo e uma onda de sal. foi com ele que entendi como o mar pode ser doce.

neste janeiro,porém, o momento mais especial aconteceu enquanto eu estava na areia, ali, no mesmo posto que sempre pertenceu a minha mãe e irmã. com um livro na mão e sentindo o vento embaraçando meu cabelo, esperando o sol ir embora, me vi olhando para o mar. estava um dia lindo, o mar parecia tão limpo e eu estava esperando só um convite para entrar. mas antes mesmo de me levantar da cadeira e chamá-los, tomada de iniciativa, eu parei e os vi. meu pai. meu amor. e os vi não como se vê normalmente,mas como se enxerga de verdade. estavam os dois fazendo os últimos retoques da isca que ia na vara, em plena sintonia. agitaram seus bonés e então veio o convite em forma de olhar. "você vem?", me perguntaram os dois. eu disse que não, também com os olhos. as quatro sobrancelhas se juntaram, em dúvida. "por que não?", mais uma vez elas disseram sem dizer.

_ daqui a pouco - me permiti responder. queria fotografar os dois indo, contar seus passos. meu começo e meu fim. admirar. agradecer. dá pra rezar fora da igreja, pensei, enquanto ambos iam a caminho do mar. 

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

all that you are is all I'll ever need

acordei com aquela sensação esquisita de terça-feira. 

todo mundo odeia as segundas, meus problemas estão sempre concentrados na terça. fico com preguiça, a semana longa, é o dia da melancolia. mas hoje eu fiz diferente, acordei tomei uma xícara de café e um bom banho. pensei no domingo. no moço da loja construindo minha casa no computador. vi meu creme da natura naquele criado-mudo. imaginei um quadro com dizeres no escritório e os spots de luz da sala. vi a gente naquela varanda, compartilhando a bem amada heineken - será que a amstel dura até lá? - ou quem sabe uma taça de vinho tinto. penedo gordo, eu bem vi. senti aquela felicidade me invadindo. eu vi tudo no domingo, mas eu só imaginei. e continuo hoje. 

samuel rosa dizia que se ele não podia ter ficava ali, imaginando. eu conhecia essa sensação. mas ter e imaginar é ainda melhor. será que ele sabe? vou pedir pra escrever uma música dizendo. enquanto isso, fico com o ed sheeran cantando tenerife sea "because all that you are is all i'll ever need".

indeed.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

telepatia

quando a gente viaja, ele dirige e eu sigo no banco do passageiro.

vamos conversando quase o tempo todo,o som ligado criando nossa melodia. mas às vezes nos calamos e estes são momentos tão especiais quanto cantar o cd inteiro do los hermanos, fazendo uma garrafa crystal de microfone. no silêncio, na ausência da obrigação da conversa, nos respeitamos.

deixamos que o assunto finde e mergulhamos com tranquilidade num mar de cumplicidade onde só nós dois estamos autorizados a explorar. não sei o que ele pensa. me perco nos meus milhares de pensamentos, mal consigo contá-los e então, no meio disso tudo, ele pega na minha mão. entrelaça os dedos da sua mão direita nos dedos da minha mão esquerda e pousa na minha coxa. uma metáfora perfeita das nossas vidas. neste momento vivemos nossos pensamentos solitários, juntos. assim como nossas vidas que seguem seus rumos na certeza da companhia, uma estrada inteira de mãos dadas.

e quando divago sobre tudo isso ele me surpreende. pega minha mão, leva até sua boca e ali repousa um beijo. me olha em seguida, um olhar breve, de esguelha, a estrada segue e ele não pode se distrair. mas eu entendo o que ele diz. é o que eu também digo quando retribuo esse olhar e quando me pego perdida olhando pra ele nas mais diversas situações do dia a dia. 

"eu te amo. a vida é melhor agora que tenho você. eu te admiro. eu te respeito. eu conheci o mundo que existe dentro da palavra amor. eu quero passar o resto da vida ao seu lado. eu sou feliz assim hoje e sei que serei amanhã. eu não temo o amanhã. vamos construir uma família juntos. somos um em dois."

tudo isso em fração de segundo. sem dizer palavra, de mãos dadas. telepatia em forma de amor. 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

o dia de hoje

há três anos eu ficava devastada pois achava que o amor da minha vida tinha me deixado em frangalhos. descobri da pior forma possível que ele não merecia o meu amor, nem minha atenção, muito menos o tempo que dediquei para ele. foi horrível. o mundo dá voltas e há exatamente um ano eu ouvia, dentro de um navio, da boca do verdadeiro amor e homem da minha vida aquelas três palavrinhas mágicas: eu te amo. um sussuro. repete? euteamo. nunca me senti tão sublime, há quem queira me convencer que o paraíso é no céu, mas desde esse dia eu tive a certeza de que eles estava aqui na terra, morando nele e na boca dele dizendo essas três palavras para mim. euteamo. eu também. e como amo! e como nunca serei capaz de expressar tudo isso, sigo fazendo declarações constantes e repetindo essa frase sublime toda vez que posso. 

mas o que importa hoje não é isso. essa data já era importante antes de tudo isso e eu, que não acredito em coincidências, acho de uma fatalidade incrível que todos esses acontecimentos tão importantes tenham ocorrido neste dia. nem sempre pudemos comemorar juntas. às vezes eu estava na praia, muitas vezes viajando, mas sempre conseguimos manter contato. um mais forte que o outro. eu olho pra trás e lembro de você se queixando que nunca teve uma festa surpresa e eu sabia o quanto você sempre quis ter. foi por isso que mexi todos os pauzinhos possíveis pra te dar aquele susto no restaurante, boa parte da família presente, você ainda cheinha, seu rosto espantado enquanto se aproximava e se dava conta que era de fato a festa acontecendo ali. lembro que eu queria ter feito mais, e você, ranzinza que era, deve ter pensado dentro de si que não era bem aquilo, você queria uma festa mesmo, em casa, balões e bufê. eu não tinha grana pra isso. se fosse hoje acho até que dava pra fazer.

eu lembro que eu costumava te dar livros. foram uns três aniversários seguintes assim. te sondava e comprava. uma vez, te dei uma massagem, não sei se você lembra, um envelope avisando: você acaba de ganhar uma massagem. uma vez você me disse que foi seu melhor presente de aniversário. será que ainda é hoje?

eu sofro de um jeito além do doloroso quatro vezes por ano. o dia de aniversário do meu avô. o dia do falecimento dele. o dia do aniversário do tio. o dia do falecimento dele. mas como é que se enterra alguém que permanece vivo? como se mata alguém que não morreu? retificando: eu sofro de um jeito doloroso cinco vezes por ano. seu aniversário é um deles.

(porque nele você existe para o mundo e pra mim nunca mais [?])
(quanto tempo dura um nunca mais? )