segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

telepatia

quando a gente viaja, ele dirige e eu sigo no banco do passageiro.

vamos conversando quase o tempo todo,o som ligado criando nossa melodia. mas às vezes nos calamos e estes são momentos tão especiais quanto cantar o cd inteiro do los hermanos, fazendo uma garrafa crystal de microfone. no silêncio, na ausência da obrigação da conversa, nos respeitamos.

deixamos que o assunto finde e mergulhamos com tranquilidade num mar de cumplicidade onde só nós dois estamos autorizados a explorar. não sei o que ele pensa. me perco nos meus milhares de pensamentos, mal consigo contá-los e então, no meio disso tudo, ele pega na minha mão. entrelaça os dedos da sua mão direita nos dedos da minha mão esquerda e pousa na minha coxa. uma metáfora perfeita das nossas vidas. neste momento vivemos nossos pensamentos solitários, juntos. assim como nossas vidas que seguem seus rumos na certeza da companhia, uma estrada inteira de mãos dadas.

e quando divago sobre tudo isso ele me surpreende. pega minha mão, leva até sua boca e ali repousa um beijo. me olha em seguida, um olhar breve, de esguelha, a estrada segue e ele não pode se distrair. mas eu entendo o que ele diz. é o que eu também digo quando retribuo esse olhar e quando me pego perdida olhando pra ele nas mais diversas situações do dia a dia. 

"eu te amo. a vida é melhor agora que tenho você. eu te admiro. eu te respeito. eu conheci o mundo que existe dentro da palavra amor. eu quero passar o resto da vida ao seu lado. eu sou feliz assim hoje e sei que serei amanhã. eu não temo o amanhã. vamos construir uma família juntos. somos um em dois."

tudo isso em fração de segundo. sem dizer palavra, de mãos dadas. telepatia em forma de amor. 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

o dia de hoje

há três anos eu ficava devastada pois achava que o amor da minha vida tinha me deixado em frangalhos. descobri da pior forma possível que ele não merecia o meu amor, nem minha atenção, muito menos o tempo que dediquei para ele. foi horrível. o mundo dá voltas e há exatamente um ano eu ouvia, dentro de um navio, da boca do verdadeiro amor e homem da minha vida aquelas três palavrinhas mágicas: eu te amo. um sussuro. repete? euteamo. nunca me senti tão sublime, há quem queira me convencer que o paraíso é no céu, mas desde esse dia eu tive a certeza de que eles estava aqui na terra, morando nele e na boca dele dizendo essas três palavras para mim. euteamo. eu também. e como amo! e como nunca serei capaz de expressar tudo isso, sigo fazendo declarações constantes e repetindo essa frase sublime toda vez que posso. 

mas o que importa hoje não é isso. essa data já era importante antes de tudo isso e eu, que não acredito em coincidências, acho de uma fatalidade incrível que todos esses acontecimentos tão importantes tenham ocorrido neste dia. nem sempre pudemos comemorar juntas. às vezes eu estava na praia, muitas vezes viajando, mas sempre conseguimos manter contato. um mais forte que o outro. eu olho pra trás e lembro de você se queixando que nunca teve uma festa surpresa e eu sabia o quanto você sempre quis ter. foi por isso que mexi todos os pauzinhos possíveis pra te dar aquele susto no restaurante, boa parte da família presente, você ainda cheinha, seu rosto espantado enquanto se aproximava e se dava conta que era de fato a festa acontecendo ali. lembro que eu queria ter feito mais, e você, ranzinza que era, deve ter pensado dentro de si que não era bem aquilo, você queria uma festa mesmo, em casa, balões e bufê. eu não tinha grana pra isso. se fosse hoje acho até que dava pra fazer.

eu lembro que eu costumava te dar livros. foram uns três aniversários seguintes assim. te sondava e comprava. uma vez, te dei uma massagem, não sei se você lembra, um envelope avisando: você acaba de ganhar uma massagem. uma vez você me disse que foi seu melhor presente de aniversário. será que ainda é hoje?

eu sofro de um jeito além do doloroso quatro vezes por ano. o dia de aniversário do meu avô. o dia do falecimento dele. o dia do aniversário do tio. o dia do falecimento dele. mas como é que se enterra alguém que permanece vivo? como se mata alguém que não morreu? retificando: eu sofro de um jeito doloroso cinco vezes por ano. seu aniversário é um deles.

(porque nele você existe para o mundo e pra mim nunca mais [?])
(quanto tempo dura um nunca mais? )

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

a magia

_ Abracadabra! Sinsalabim! Alakazam!

O menino de pele branca, sardas e óculos de aro grosso repetia sem sucesso as três palavras, com as duas mãozinhas igualmente sardentas se movendo para cima e para baixo enquanto sua irmãzinha o olhava profundamente, tendo os olhos verdes marejados desolados:

_ Você sabe que ele não acordar, não sabe? - ela perguntou, enquanto tinha a mão pousada em seu braço. - Seu esforço está sendo em vão. Você é um excelente mágico, mas para certas coisas, a mágica não funciona. 

O menino balançou os ombros e sentou-se na grama, os olhos ainda no pequeno cachorrinho, mas as mãos agora ocupadas em arrancar folha por folha do chão. 

_ Acho que não sou um bom mágico ainda. Tenho muito que aprender. - disse em voz baixa, enquanto uma lágrima escorria vagarosamente pelo seu rosto até desembocar no canto de sua boca. O menino pareceu não perceber.

_ Acredita em mim, nem o melhor mágico do mundo conseguiria fazer com que ele voltasse a correr por este jardim. - a irmã acabou por sentar-se ao seu lado e passou um braço pelo ombro do irmão.

_ A mamãe vai ficar arrasada...

_ Você está arrasado! - a menina limpou uma de suas lágrimas - Eu estou arrasada e a maioria das pessoas do mundo que o conheciam também vão ficar. Especialmente a mamãe. Ele foi um bom cachorro. Um cachorro feliz! Apesar do péssimo hálito, tenho que dizer.

O menino arregalou os olhos, indignado:

_ Não fale assim dele! Que coisa feia! Falar assim dos mortos! E ainda na frente deles! 

_ Acho melhor do que falar mal dos vivos - ela replicou. Depois, vendo que o irmão não a entendera e especialmente o sofrimento nos olhos daquela criança ainda menor que ela, assumiu seu papel de primogênita e tentou se redimir. - Ele vai ficar bem. Veja bem, ele já está melhor que nós. 

O irmão parou de arrancar as folhas da grama e de fitar o cachorro, olhando para a irmã. Aquelas palavras o interessavam. A irmã percebeu e assim, continuou:

_ Sim, ele está bem. Ainda melhor que nós. Neste exato momento ele deve estar no céu. Um Céu só pra cachorros, pulando de nuvem em nuvem e achando graça da sua rapidez. 

_ Um céu só com cachorros? Que triste... pensei que ele pudesse estar com o vovô. Além disso, ele nem gostava tanto assim de outros cachorros. 

_ Ah, mas avós são permitidos no céu dos cães, sabia? - a irmã, apressou-se em responder - Assim como cães são permitidos no céu dos seres humanos. Eles podem se visitar, quando quiserem. 

_ Tem certeza? - o menino perguntou, enquanto olhava mais uma vez de relance para o cachorro, para então olhar para irmã, os olhos cheios de expectativa, ainda maiores por trás das lentes.

_ Absoluta! - a menina não titubeou em responder, tendo nos olhos a certeza dos adultos. 

E foi ali que ela deixou para trás um pedaço da sua infância. 


segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

eu amo ele todo

não sei se gosto mais dele com barba ou sem.

no começo, confesso, era a a barba que me fazia pirar. era época de copa do mundo, eu estava fazendo aquele álbum de figurinhas e todos os jogadores (gatos) da grécia eram barbudos. ele também estava. e eu adorava vê-lo chegando na porta de casa com aquela barba por fazer, sujeito homem, virilidade exalando. vontade de ser cuidada, de deixar que ele tomasse conta de mim. 
agora, quando ele faz a barba, eu gosto também. fica tudo branquinho, dá vontade de passar a mão naquela parte lisinha, cheirando a pós barba. vira um menino, as cicatrizes mostrando as inseguranças, a inocência aparente. vontade de cuidar, de pedir que ele deixe que eu tome conta dele.

que a gramática me perdoe: mas eu amo ele todo. dos fios brancos que nascem daquele cabelo preto azulado, às unhas do pé tamanho quarenta e dois. amo a barba, a falta da barba, as curvas do braço, os cílios e a sobrancelha cerrada. eu amo ele todo. 
do começo ao fim.