domingo, 1 de abril de 2018

M de... maternidade? mudança?

dizem que a maternidade muda as pessoas.

não duvido disso. tenho uma amiga cuja principal característica durante anos foi a total atenção. era incrível sair com ela, pois eu tinha a sensação de que nada, absolutamente nada naqueles encontros era mais importante do que eu. ela tinha uma capacidade (que eu venerava) de se fechar em nossas conversas sem se importar com nada do que acontecesse ao nosso redor. às vezes, eu tinha a impressão de que se houvesse um ataque alienígena enquanto nossos jantares ocorriam, seríamos as últimas a ficar sabendo. mas como vocês bem devem ter percebido, estou escrevendo tudo isso no passado, pois há cinco anos sua pequena chegou e nossos encontros nunca mais foram os mesmos. 

minha amiga tornou-se a pessoa mais desatenta do mundo. somos interrompidas quatrocentas e trinta e sete vezes pela pequena em cafés da tarde que duram não mais que duas horas e quando conseguimos a proeza de almoçarmos sozinhas, o celular ganha metade da atenção que eu costumava ter só pra mim. não estou julgando minha amiga, ainda que isso me irrite e eu acredite que ali faltam algumas barreiras da educação, mas constatando que a maternidade transforma as coisas. e que eu acho que já está me transformando.

eu sempre fui uma mulher chegada na insegurança. não que eu não confiasse em mim na maior parte do tempo ou tivesse crises existenciais a cada sete dias, mas acho que sempre estaquei em momentos chave da vida, ao tomar grandes decisões, ao encarar grandes mudanças. mas a maternidade, além de ser um céu de felicidade, é também um poço de inseguranças. nas últimas 24 semanas eu descobri um medo que não pensava existir. medo de perder minha bebê, medo de comer demais (ou de menos!), medo de esquecer o remédio, medo da ultrassom, medo de não conseguir fazer tudo a tempo, medo de não conseguir conciliar trabalho e maternidade, medo de namorar, medo de não namorar mais, medo do parto, medo de não ser boa mãe - e levei cerca de um minuto e meio para pensar e dividir estes medos, o que significa que tenho tantos outros mais. 

já sinto a maternidade me mudar de uma forma tão incrível, que... adivinhem! me assusto! fico aqui imaginando que tipo de mãe serei, como ficará meu casamento depois da chegada da minha pequena e especialmente em como farei para que ela seja feliz em um mundo tão louco e cheio de perigos. 

dizem que a maternidade caminha de mãos dadas com a loucura. 
será?

terça-feira, 6 de março de 2018

costa girls

voltei a assistir gilmore girls.

não faz pouco tempo, tem mais de mês. terminei todos os queridinhos - the crown, grey's anatomy, downtown abbey e precisava ocupar meu tempo com algo mais. gilmore girls é sempre uma boa saída e rever as personagens que tanto me fizeram companhia há anos, com os olhos de hoje, tem se mostrado uma tarefa no mínimo interessante. 

ano passado, antes do meu casamento, eu tinha recomeçado a assistir, mas fiquei só na primeira temporada. mesmo assim, tenho que confessar que algumas revelações foram bem incríveis. para começar, eu entendi porque quando adolescente preferia lorelai e achava rory chata - eu era rory! a leveza de lorelai, suas tiradas, seu jeito tranquilo de levar a vida me encantavam enquanto rory se apaixonava pelos caras errados e preferia ficar em casa a ir para festas da sua idade...bem, devia ser demais pra mim, já bastava me ver todo dia no espelho, que dirá assistir uma versão (mais puritana, confesso) de mim. 

mas este novo momento tem sido ainda mais engrandecedor (perturbador?) pois nos últimos meses estou pela primeira vez olhando mais para lorelai - essa querida, cujo nome dei para meu falecido computador rosa. olhando além das tiradas, das palavras que fluem em velocidade recorde por segundo, além das caretas e baboseiras que, por Deus!, um dia ainda conseguirei fazer com a minha vida. o que acontece é que por vezes permaneço em seu olhar, analiso seu cuidado, admiro o fato de ter criado uma menina tão incrível quanto rory quando ainda sozinha e tão nova. 

episódio passado, rory finalmente foi para a universidade e eu chorei quase que do começo ao fim. estava evitando aquele momento, pois estava com medo dos sentimentos que viriam e vieram e enfim... lorelai nada tem de minha mãe, exceto talvez o mais importante: o amor arrebetador de mãe para filha. ao assistir o episódio, foi inevitável pensar nos dias que antecederam meu casamento, quando sair de casa se aproximava. passado o êxtase de lua de mel, o grito sufocado na garganta de "eu quero minha mãe" e "me devolve minha irmã!" - ganhei de rory nessa - e a vontade de voltar para aquele berço, aquele ninho de amor onde fui criada com minha família. nós quatro, pois seu flávio é durão, mas é um puta pai - cristopher não chega nem aos pés, rory, ganhei de novo. 

e ao assistir este episódio (2 da quarta temporada) eu percebi que, assim como rory, sou uma sortuda, pois muito pode ter me faltado, mas sempre nadei na abundância do amor e da segurança que ele emana quando verdadeiro. e chorei por isso. percebi que assim como rory, tenho a melhor mãe do mundo e para ela posso ligar a qualquer momento, que mesmo aos 28 ela vem correndo me fazer sopa de legumes quando cinco pedras no rim filhas da mãe resolvem me torturar. e chorei também por isso. mas, ainda mais do que tudo, percebi que aos poucos vou me despedindo de rory para também entender lorelai. pois hoje não sou apenas filha. deixei de olhar o seriado e me entender apenas como rory. estou me tornando lorelai, estou me tornando mãe. e ainda choro agora, quando penso nisso. 

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

você vem em julho

ah, a vida que eu dividi neste blog!
foram tantos medos, tantas incertezas. angústias da adolescência, saudade de quem não pode mais estar perto e de quem nunca deveria estado. este blog é quase um autorretrato, acho até que o é, ainda mais fiel do que aqueles que tiro com os colegas em festas. muito mais fidedigno! vou rezar, blogspot, para que tumblrs, facebooks e whatsapps não te tirem nunca do ar, para que você permaneça assim, pobrinho com poucos visitantes ou até mesmo nenhum. aqui tenho meu diário de anne frank, aqui estão minhas partes para a posteridade. e eu já sabia disso mesmo antes de saber. 

sabe o que eu escrevi aqui no dia 23 de novembro de 2007, no auge de meus dezessete? "Por isso apareci por aqui, pra dar vazão às minhas loucuras, mesmo sem entendê-las. Vou tentar aqui, me construir sem perceber e curtir minhas inconstâncias e antíteses." eu me cumpri. cumpri com minha promessa e já demonstrava ali, no meio de tantas confusões adolescentes, minha vontade de escrever tudo em letra minúscula, seguindo o ritmo do meu pensamento. eu nem tinha lido Saramago - este, sempre com maiúscula. meus capítulos estão aqui. minha história. a construção de quem eu sou, mesmo quando eu não sabia que estava colocando mais argamassa e tijolo, mesmo quando não sabia que estava erguendo (ou destruindo) muros. sobretudo, por aqui vai todo meu amor. 

e então hoje, no meu último post até agora, com 28, marido voltando do trabalho e irmã e pais me esperando pra jantar na mesma casa que escrevi as primeiras linhas desse blog, meus marcadores são diferentes. há onze anos foram:  blog, começo, ex, vestibular. foi antes ainda de eu abrir os marcadores definitivos que se tornaram amor (43) desabafo(24) devaneios (32)ele (10) lá dentro (35)letra e som (9) memórias  e (21)observando. hoje, aqui, eu abro o maior de todos. meu coração fora do peito, a concretização da pureza da vida, a realização de todos meus sonhos, o meu capítulo mais bonito que virá a justificar todos os anteriores e significar cada um dos próximos. seja bem vinda ao meu blog, minha filha (1)


domingo, 8 de outubro de 2017

procura-se

tenho vontade de escrever o tempo todo. 

como se minha vida, ou o início da nova vida que escolhi ter, fosse muito importante e eu precisasse documentá-la para relembrar disso tudo adiante. ainda tenho um diário que escrevo numa frequência cada vez mais pífia. sou interrompida a todo tempo. a máquina de lavar cantando avisando que já acabou, o cesto de roupas transbordando no escritório, me lembrando que tenho que tirar as roupas do varal para a nova leva, a lista de compras em cima do balcão me lembrando que preciso comprar shampoo urgente se quiser ir com cabelos limpos trabalhar amanhã. e eu não quero trabalhar amanhã, mas isso a gente joga na gaveta do pensamento e deixa de castigo, feito criança malcriada. não sobra tempo pra nada. 

ontem me olhei no espelho, deu vontade de dar uma maquiada. eu não ia sair com o marido, não ia pra festa importante, tava praticamente cumprindo uma missão ao ir em um chá de bebê naquela tarde chuvosa, mas eu resolvi que precisava me arrumar. olhar pra mim. cuidar de mim. eu tenho vontade de cuidar dele o tempo todo, tenho vontade de deixar a casa arrumada noventa por cento do tempo, quero que corra tudo bem no trabalho. tem sempre alguma coisa pra comprar: o espelho da sala de jantar, o vidro da varanda, o sabonete líquido do lavabo. não sobra mais para os meus perfumes. que dirá pras minhas maquiagens. dia desses comprei sapato obrigada, porque com a despedida do inverno me lembrei que precisava de sapatilhas. necessidade. amenidades e mimos? quando? 

tenho a sensação que são tantas coisas que chegam antes de mim que antes de dormir me procuro. cadê eu, onde eu fui parar? arranjei tempo pra trabalhar mais dez aulas por semana - ou a necessidade arranjou - mas não consigo enfiar 45 min de esteira na rotina. que é mais uma obrigação, diga-se de passagem. vontade mesmo? deitar na cama até tarde, voltar pra cancún, namorar o marido quando der vontade, ler até cansar, escrever no blog, ir ao cinema, sétima temporada de dowtown abbey, meu avô entrando com as alianças no meu casamento, um filho pra me deixar ainda mais atarefada. 

quando a gente coloca sonho dentro da realidade?
quando foi que eu me tornei tudo aquilo que eu julguei errado?