quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

o doce tilintar azul de um molho de chaves

às vezes eu fico chocada com o poder de uma fotografia. não essa profusão de vazios e selfies que publicamos em nossa timeline, totalmente desprovidas de sentido, mas daquelas que buscam registrar momentos que são caros para nós, e que nem desejamos partilhar com o mundo de tão especiais. hoje vi uma porção dessas com o seu rosto, e senti saudade de você.
veja bem, não é que e não sinta sua falta sempre. poucas coisas são tão comuns (acordar, escovar os dentes e tomar banho, por exemplo), mas é que as fotos te trouxeram de volta com tanta força! foram inúmeras! jovem, novo, menino quase, de óculos, sem óculos, magro, gordo. te vi de todos os jeitos, alguns até pela primeira vez - sinceramente, que costeletas eram aquelas? como você conseguiu vestir calças desse jeito? - e eu quis fazer parte. a saudade começou assim, branda, feito carinho no rosto. queria ter estado naqueles lugares com você, conhecido as pessoas que te construíram e acabado com todas aquelas que te destruíram. queria ter ouvido mais os seus conselhos, não que eu não os escutasse, mas porque eu era nova demais para que você os dissesse. queria ter estado mais com você, ter mais tempo com você. quinze anos foram muito pouco.
e é aqui que a saudade se torna leviana e me esbofeteia um lado do rosto, enquanto acaricia o outro. acho que começa quando eu começo a me ver nas fotos com você: no seu colo, ao seu lado, no plano de fundo da foto. porque ali eu estava com você, eu escutava a vibração da sua voz, sentia seu cheiro. conseguia contar as manchinhas do seu braço, podia assistir a quantas partidas de vôlei eu quisesse e dar minhas voltas de bicicleta no quarteirão, enquanto seu olhar me acompanhava. e então você se levantaria e eu ouviria o barulho do seu molho de chaves. é possível sentir saudade de um ruído?
e acho que hoje é desses dias que eu demoro a dormir, porque estou muito ocupada com a sua ausência. e por mais que doa, acredite, o gosto é doce. doce e azul. feito o algodão doce que você me trazia todo sábado. feito os olhos que sempre me acompanharam - e acompanham. feito você.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

como é que se diz eu te amo

eu acho que eu soube no momento em que eu te vi. 

vi esses dias um vídeo da mallu falando do primeiro encontro com o camelo e ela o descreve como um ser iluminado, uma santidade. ela diz que se apaixona instantaneamente e eu acho que se eu não te reconheci como uma santidade no momento em que te vi, com certeza me apaixonei imediatamente após você dizer que me acompanharia pra comprar aquela garrafa d'água. 

eu fui me acostumando com a certeza do nascimento do amor dentro de mim. não era uma coisa com a qual eu estava acostumada, veja bem. vivi dez anos acreditando que amor de verdade só acontecia uma vez na vida e Deus sabe o quanto eu já tinha amado, então eu tentava burlar o meu sistema contestando aquelas sensações. como a felicidade que brotava ao ver seu nome na tela do celular, ou a doce surpresa de ver que você encarava a vida como eu, ou ainda, o fato de você terminar as frases junto comigo, ou dizer as palavras que eu estava prestes a dizer e não dizia por ficar muito embasbacada com a beleza do seu sorriso. "paixonite", eu diminuía. "aguda", quando isso parecia pouco demais. 

mas a verdade é que lá para o terceiro mês nem isso adiantava mais. e no quarto, quando a dúvida do amor verdadeiro já tinha tomado meu consciente, eu escrevi pela primeira vez no meu diário que paixão não definia aquele sentimento, apesar do medo que isso me causava. escrevi algo como "tenho a sensação de que meu 'eu te amo' só não saiu da boca, porque de resto...". foi a primeira vez que eu verbalizei esse sentimento. em silêncio.

escalar uma montanha pode parecer perigoso, saltar de bungee jumping pode soar como loucura e fazer slackline com certeza é das coisas mais difíceis, mas experimenta dizer eu te amo. experimenta tentar, se jogar na entrega desse abismo que é desnudar a alma na frente de outra pessoa, sem suar frio, sentir taquicardia, tremores ou pânicos súbitos. é adrenalina pra deixar muito esporte radical no chão. e o medo de receber um sorriso amarelo em troca? um abraço apertado de pena, ou um olhar assustado? mas ah, e a esperança de ouvir um 'eu também' de volta, seguido de um beijo de tirar o fôlego? é, eu tinha medo de dizer eu te amo. mas eu queria tanto!

porém, flausino há tempos canta que tudo que acontece na vida tem um momento e um destino e eu tive a sorte de ser premiada por ele. quando te encontrei tocando pandeiro cinco anos atrás, quando escolhi outra pessoa pra poder assim me tornar alguém melhor pra você depois, quando te reencontrei no meio de uma improvável balada sertaneja pouco tempo depois de você ficar solteiro e quando meu coração sentiu que o seu era a casa onde eu queria viver. e depois de muito esperar, você disse. com uma taça de vinho na mão, música rolando ao fundo e olhos nos meus olhos. foi quase um suspiro: euteamo . pedi pra você repetir. será que eu estava bêbada? e você disse de novo. e de novo. euteamo. três palavrinha tão pequenas, tão imensas e leves e carregadas de significado ao mesmo tempo. você deu à elas o peso necessário e eu correspondi. porque é assim que se diz eu te amo, meu amor. e é assim que eu amo você. 

domingo, 14 de dezembro de 2014

notas mentais sobre medos infundados (?) e amor demais

não é sempre que acontece, mas quando ocorre me apavora. 

esse nó na alma logo depois que você vai embora. não sei, acho que deve ter alguma coisa a ver com as minhas inseguranças. outro dia constatei que dentre todos os defeitos que você nunca pontua, o mais ascendente é que sou insegura. sei lá como que isso começou, com o outro também era assim e sei que comparações são detestáveis, mas o que ninguém diz é que são inevitavelmente inevitáveis. acho que a culpa é dele. adoro colocar toda a culpa nele. tiro um pouco de mim. 

enfim, você vai embora e eu fico com medo. me pergunto se alguma vez você já teve esse disparo no peito, um medo de perder louco e infundado. acho que não. homens são muito mais seguros pra esse tipo de coisa do que as mulheres e eu sou ainda menos segura que a maioria delas então trace o quadro. ando achando defeito em várias partes de mim, é o peito pequeno, uma estria esbranquiçada que apareceu na coxa esquerda e o dente recuado. não tinha essas coisas antes de você chegar e não sei que relação tudo isso tem com você, só sei que tem -porque sou eu quem sempre diz que coincidências não existem. 

mas mais do que isso tudo eu me assusto com a força. outro dia eu estava escutando halo na versão da ane brun e a cada palavra que ela cantava (especialmente: everywhere I'm looking now / I'm surrounded by your embrace / baby I can see your halo / you know you're my saving grace) eu lembrava de você. aconteceu de novo com ed sheeran e sua maravilhosa thinking out loud (I'm thinkin' bout how / people fall in love in mysterious ways / maybe it's all part of a plan / I'll just keep on making the same mistakes / hoping that you'll understand). e acontece quando eu acordo e penso em você, quando pesquiso o índice de ldl de alguns alimentos porque você agora tem colesterol alto e acontece quando meu coração pula a cada mensagem sua que chega. acontece quando você me beija e quando você não me beija, acontece quando eu leio uma frase boba em um livro mais açúcar que água da Nora Roberts e eu penso em você. acontece porque eu penso em você o tempo todo e talvez mais do que eu penso em mim. 

não gosto assim.

um dia eu te disse que você tinha medo de ser feliz. e esses dias me indaguei se este não é um receio que temos em comum. fico me perguntando se isso que eu estou sentindo é medo de tristeza ou da felicidade. como saber? mas dentre todas as dúvidas a que mais me aflige é: eu tenho que ter mais medo de mim ou de você? (e eu me respondo com um: eu tenho que lembrar de gostar mais de mim que de você). 

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

amor em cinco de agosto

quando eu acordo, meu primeiro pensamento é seu.

oscilo entre o "que saudade", o "que vontade" e o "isso é felicidade", mas sempre tem você. e um sorriso meu nos primeiros 10 segundos do dia que também é seu. é maluco.

tem você nas músicas do rádio, mesmo naquelas que falam de desamor - eu me despeço de cada verso na certeza de que eles sempre vão falar de alguém, mas nunca de você. e te encontro no almoço, mesmo quando você não está - temaki sei que você adora, mas preciso te levar um pedaço dessa cheesecake pra você experimentar.

e te vejo no trânsito, no carro preto que para ao meu lado e no c3 prata que atravessa o sinal antes da hora. e também no calendário que ao mesmo tempo que corre, demora. e nos rostos, nos gostos, nos passos que dou, nos abraços que guardo, no quem eu sou quando olho no espelho. na tela do celular quando pego pra mandar mensagem e, subitamente, você liga. na nossa liga. no eu e você. em nós. 

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

sentimentos insanos de uma noite mal dormida (ou: pra tirar a poeira de um blog quase esquecido)

sabe quantas vezes eu tentei? nem eu. perdi as contas de quanto me deixei de lado - às vezes em cima, outras tantas pra baixo - só porque achava que nós dois merecíamos mais uma chance. que nós valíamos a pena. que você valia o preço. não vale.
coloquei tudo na balança todas as vezes e ainda que eu tenha te favorecido na maioria delas, nada me impediu de considerar minhas escolhas a cada tentativa. e hoje pela primeira vez eu assumi que não vale. você não vale a pena.
nossos horizontes não são tão próximos quanto eu imaginava, ou , se são, não olhamos na mesma direção. podemos até ter os mesmos objetivos em mente, mas agora entendo que nossos meios de chegar até ele são opostos.
acho muito que mereço mais. o suficiente quase sempre é o bastante, mas já faz bastante tempo que o pouco é só pouco.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

eu fico com a pureza da resposta das crianças

existem muitas maravilhas em ser professora.

a maior delas é poder estar em contato com o ser humano quase cru. e quando digo cru, não imagino uma página em branco, mas sim uma pessoa concreta que ainda não foi brutalmente alterada pelo mundo louco ao seu redor. ou que pelo menos ainda não tem consciência disso. acontecem tantas coisas lindas em sala de aula que eu acho que deveria fazer um blog só para relatar situações. mas enquanto isso não acontece, deixo aqui um pedacinho de magia real. 

"tenho uma turma de alunos com cerca de 5 anos de idade. não é nem de longe a minha favorita, porque -deixa eu te contar um segredo - não acredito muito em inglês nessa idade como curso extra e me dá uma dó daquelas crianças que poderiam estar fazendo qualquer outra coisa que não sentadas mais uma hora em sala de aula. mas os pais não pensam assim. enfim, dentre estes meus alunos que são fofos de morrer (ainda não decidi se quero uma filha Lívia, Luísa ou Laura, porque cada uma delas me contagiou de um jeito que não consigo me conter) tenho um que tem duas mães. 

isso mesmo, as mães são lésbicas. uma delas é musa do verão, cabelo loiro tingido perfeitamente, olhos verdes, corpo escultural. passaria fácil como modelo internacional. já a outra faz mais o estilo thammy gretchen, cabelos pretos estilo joãozinho, bermudão e muitas tatuagens. é a mais presente e um ser humano incrível. já reparei há um certo tempo que o filho delas chama a "menininha" de mãe, e a "homenzinho" de pai. acho incrível. 

no fatídico dia, meu aluno que aqui vou chamar de Lulu (entrando na onda do L), esqueceu a lancheira. a mãe bonitona de cabelo loiro comprido, voltou pra entregar enquanto a outra esperava afastada. beijinhos e lancheira entregues, uma outra aluna, muito esperta e sem deixar de pintar - o tema eram os cômodos da casa - perguntou, sem tirar os olhos do papel. 

_ ô Lulu, sempre quis te perguntar isso. aquela ali é sua mãe ou seu pai?
_ minha mãe! - ele respondeu, também com os olhos no desenho.
_ humm.. - a pequena continuou, desconfiada - e a outra?
_ ah... - ele coçou a cabeça e analisou o desenho. nesse momento o restante dos alunos também parou. pude ver que a curiosidade da pequena era na verdade, a do grupo inteiro - é meu pai. - e antes de encerrar o assunto acrescentou - e minha mãe também. 

a pequena jornalista permaneceu concentrada em seu desenho. e então, quando achei que a conversa já tinha acabado, retomou. olhando diretamente pare ele. 

_ Lulu, então você tem duas mães?
_ isso! - ele respondeu prontamente. também parou e olhou para ela. - e é como se as duas fossem meus pais também! 

 a sala ainda continuava concentrada na conversa, só um ou outro distraídos com qualquer outra coisa. e então, minha pequena ilustre menina me deu esse presente precioso:

_ ah, tá, claro. que legal! 

a turma toda concordou com a cabeça e ainda ouvi a moreninha falante do outro lado pedindo um lápis emprestado para o tal Lulu. eles continuaram seus desenhos, pediram mais jogos e disseram que estavam cansados. como se tudo aquilo fosse normal.eles são todos crus. eles acham tudo normal. "claro!", ainda ouço aquela vozinha dizer, os olhos girando, como se aquilo fosse uma coisa óbvia. vocês me entendem? que bom! eles me entendem!"

Feliz dia dos professores ;)