quinta-feira, 25 de junho de 2015

eu sou uma granada

pequena e aparentemente inofensível. 

você pode me carregar no bolso se quiser, para cima e para baixo, não represento muito perigo. quem me olha se espanta com tanta calma, com o quanto sou meiga e delicada, com o quanto eu sou educada. e abusam disso. o ser humano pode ser incrível, mas ô raça pra conseguir ser filha da puta. as pessoas confundem educação com idiotice e acham que podem fazer de tudo comigo, magoar, ser inconveniente, ferir. "tudo bem, ela é tão educada, ela é tão meiga. ela aguenta!" eu não consigo. nem sempre eu aguento. e atenção: se você me jogar, eu detono tudo. 

não sei bem como começou, mas o meu nível de ira é uma coisa que muita gente desconhece. justamente pela calma que sou na maior parte do tempo (pequena e inofensível, lembra?) é inconcebível para as pessoas me imaginando no meio de um ataque de raiva. mas quando acontece, sai de cima, desaparece de baixo, se esconde para os cantos, que eu vou te ferir. assim como uma granada, se você me guardar com carinho eu não vou te machucar em nada. mas experimenta puxar o pino. experimenta brincar de me chutar para o lado. brinca de me tratar mal que seu último pensamento vai ser "fui mexer com a pessoa errada!". 

entenda que eu não fui feita para destruir. ao contrário do que parece e da nossa velha amiga em formato de romã, minha natureza é oposta à destruição. tô aqui pra fazer o bem, meu desejo é que o mundo seja lindo, que as pessoas sejam boas, que encontremos o amor em todos os cantos. que a gente possa dar amor e receber também. mas tem sempre um filha da puta pra estragar o esquema. tem sempre um alguém pra mexer comigo. hoje é um desses dias. me deixa quietinha, me deixa na minha. eu consigo passar pelo mundo sem fazer nenhum estrago. mas se eu explodir, meu bem... compreenda: foi você que jogou o pino pro alto. 


quinta-feira, 4 de junho de 2015

angústia

João abriu a tela do celular para parar com o dedo no meio do caminho. Viu a tela acender e apagar enquanto pensava no que faria em seguida. Mandar mensagem parecia tão pouco. Ligar parecia invasão. Mas não conseguia deixá-la caminhar para aquela direção novamente. Será que ela não percebia? Decidia viver enclausurada novamente, no alto da torre do amor, como se viver dele bastasse. Será que ela não tinha aprendido nada desde a última vez? Afinal, fora exatamente assim. Ele lhe disse com todas as palavras para não confiar no amor assim tão cegamente, não mergulhar tão fundo em oceanos que desconhecia a profundidade. Da última vez, foi com a cabeça doendo e os olhos inchados que ela voltou pra ele, dizendo que na verdade havia se jogado em uma piscina rasa. Coube a ele juntar os cacos, dar goles de vinho e um travesseiro quente. E quando pensava que tudo estava bem, tinha que assisti-la se perder novamente. 

quinta-feira, 28 de maio de 2015

serpente

não sei mais onde eu começo ou termino. 

maio tem sido um mês cão. briguei feito doida com a maior parte das pessoas que amo e sinto que minha paciência anda mais baixa que os níveis da cantareira. minha autoconfiança, então, nunca foi tão escassa! a estria na perna esquerda ainda me incomoda, mas meu cabelo já foi mais loiro, mais brilhante e sedoso. cortei a franja só pra achar que comprida estava melhor. com toda essa evolução no mercado, por que ainda não inventaram nada pra fazer peito crescer? e que merda de calcanhar grosso é esse. nem pé de criança que joga futebol na rua (isso ainda existe?) precisa tanto de podóloga como eu. 

é como se eu nunca fosse o bastante. não me dou trégua, sempre acho que posso ser mais. não consigo decidir se por excesso ou falta de confiança - excesso por achar que sempre poderia ter feito melhor, falta por nunca estar completamente contente com o que de fato fiz. ninguém deve viver assim. buda explica. eu sempre gostei tanto de budismo, mas até ele pode ser causa de frustração caso você não consiga segui-lo. it sucks. 

queria ser mais boazinha comigo, menos crítica, mais leve. mais como sou com os outros. seria tão bom me tratar como sempre tratei os outros, com a mesma paciência, a mesma compaixão. mas ultimamente tem acontecido o inverso. me pego irritada com aluno rindo de besteira no fundo da sala e me é penoso ter que repetir uma mesma instrução mais de uma vez. porra, já não ouviu na primeira? susan miller deve explicar. mas dane-se ela. que raiva eu tenho de gente que aponta problema sem mostrar solução. 

acho que podiam olhar pra mim de um jeito diferente. como eu olhava para os outros. com a mesma calma, paciência, compaixão. acho que o mundo me endureceu e eu odeio gente dura. quando olho no espelho fico em dúvida. acho que tô trocando de pele.
não sei mais onde eu começo.
nem onde termino. 

sexta-feira, 8 de maio de 2015

posse

daqui a pouco tudo que é meu 
será seu
minha coleção de canecas
meus preciosos livros
e o lado direito da cama

muito em breve tudo que é seu
será meu
suas garrafas verdes da heineken
as tais contas do imposto de renda
e seu dedo anular da mão esquerda

serão suas minhas noites de insônia
meus erros, meus acertos
minhas vitórias
meus medos
e receios


serão minhas tuas noites de sonhos acordados
tuas conquistas, teus fracassos
teus planos
seus melhores
e piores anos

mas então,
enquanto o futuro não chega -
e depois ainda de ele chegar –
pego minha alma pela mão,
enquanto ela própria carrega meu coração,
e me entrego sem bandeja. 


peço, num quase sussurro:
toma. pega. guarda. cuida.
minha alma
nua.
tua.