lembranças
há pessoas que passaram na minha vida que são mais importantes pra mim do que eu sou para elas.
esta é a verdade nua, crua e dolorosa. as vezes, como hoje, me pego fechando os olhos e lembrando de detalhes minúsculos do que tivemos. eu mesma me assusto com o poder da minha memória de quando em vez. é só sentir um cheiro, escutar uma música, ver alguém parecido passando na rua que entro no túnel do tempo de lembranças guardadas à sete chaves e até então esquecidas. quando vejo, cá estou eu, revisitando quem fui e me surpreendendo com o que sou ou com o que me tornei, o que serei a partir dali. quando lembro de abraços trocados debaixo de escadas escuras, quase posso sentir o toque da pele cor de rosa na ponta dos dedos, vem o cheiro do perfume do boticário, das minha vontades dos meus sonhos dos meu planos tão grandes e pequenos espalhados naquele cubículo trancado com porta de alumínio. acho que ando nostálgica. dizem que a gente se refugia no passado quando o presente é intolerável. eu me procuro no passado, constantemente, mais do que nunca. e gosto do que sinto, gosto do que vejo. gosto do quarto com cama branca desforrada, do filme rolando esquecido na sala, da vibração do som tocando donavon na ponta direita do meu pé. sinto saudade, mas não sinto falta. é possível isso? pra mim é. ando me reescrevendo ultimamente e não sou nenhum guimarães rosa, mas crio palavras em mim. só eu me leio nas entrelinhas e assim me tornei mais amiga de mim mesma, com códigos que ninguém mais compreende, só eu e eu. uma delícia.
mas me pergunto se elas se lembram de mim, assim, com tantos detalhes. sinto inveja delas, não porque não se lembram do passado, mas por saber que eu não preencho suas memórias assim como elas permeiam as minhas. invejo o quanto elas são relevantes na minha vida e me pergunto o que eu poderia ter feito para ser mais lembrada, especial, figura registrada da saudade. talvez, eu seja, vai saber. mas não consigo me convencer que elas tem esse dom (darma?) de lembrar o passado como clique, como apertar sem querer o botão zero do controle remoto da memória e descobrir ali a melhor programação daquele espaço da sua vida. se eu pudesse, dividia com elas tudo o que registrei, não por caridade mas por orgulho e egoísmo, só pra ter a certeza da satisfação que deve ser ser lembrado com tantos detalhes, gostos, cheiros, toques, olhares e companhia. mas como não posso, faço força no pensamento, toda vez que fecho os olhos e vou pra onde estivemos, peço em um silêncio em sânscitro codificado: onde você estiver, não se esqueça de mim.
Comentários
muito bom o texto!
Bjos!
eu poderia tranquilamente ter escrito este post... me sinto assim como você e sei que lembro muito mais das pessoas do que elas se lembram de mim. também não sei se o problema sou eu, que não sou significativa o sufiente para não ser esquecida, ou se são as outras pessoas que nunca se importaram o suficiente... tuitei uma das frases do seu post (não achei o seu tuinter pra dar os créditos), mas concordo com várias coisas que você escreveu... também acho que só eu me entendo de forma completa e é bom saber que eu sou a única. enfim... tô com um post agendado para publicar no blog exatamente sobre isso, sobre os amigos que passaram na nossa vida e que nos "esqueceram"... é triste pensar isso, mas acho que os de verdade não vão embora nunca. não importa se o que a gente viveu com eles não foi mais importante do que o que vivemos com outras pessoas, mas essas vão ficar na lembrança para sempre para os dois... e são estes que a gente deve guardar com mais carinho! :)
beijo, beijo!
"invejo o quanto elas são relevantes na minha vida e me pergunto o que eu poderia ter feito para ser mais lembrada, especial" essa é minha vida, sério.
E como disse ali em cima a Thais, talvez por querer ser importante pra alguém, nos achamos menos importantes do que as pessoas são pra gente. Triste, um pouco.
beijos