terça-feira, 3 de dezembro de 2013

ah, a vida adulta

eu hoje senti o gosto doce da minha infância.

senti o peso que de tão leve era inexistente, nas costas daquela menina que gostava de andar de bicicleta e comer algodão doce. senti na pele a alegria das tias em uma festa de criança, o carinho doce do olhar do meu avô me desviando dos percalços, a brisa suave que era uma gargalhada em dia de festa e a certeza de que vilões tinham cara feia e viviam escondidos na floresta. naquele tempo as pessoas costumavam ser tão simples: o tio brincalhão, a prima incrível, a tia engraçada, a avó cantora, o primo galã. quão fácil era ser criança. 

mas ah, a vida adulta. quão difícil é crescer e sentir o peso sendo colocado em nossos ombros como mochila do colégio com um número incalculável de livros, só que desta vez sem poder tirar. como é complicado entender que festas nem sempre acontecem para festejar, que um dia se tem cinco e dali dois já se completam vinte e cinco e que a vida vai te tirar alguns daqueles olhares que você mais amou. que desafio é perceber que o riso já não vem fácil e que gargalhadas aparecem em dias especiais. mas não há dificuldade maior do que entender que as pessoas nem sempre são as mesmas. não há desafio maior do que perceber que as vezes aqueles que mais amamos são justamente os que irão nos ferir mais fundo. quanta amargura há na compreensão de que nem só de pessoas boas vive o mundo e que desfilam por aí como se fossem uma de nós. vilões da vida real, abraçando, sorrindo, cumprimentando e fingindo amar destilando veneno em qualquer esquina - e quase nunca na forma de uma maçã. 

ah, a vida adulta. foi no seu azedume que compreendi a doçura da infância. foi com o seu peso desmedido e quase insuportável que compreendi a leveza de quando criança. foi na sua estrada que compreendi que os tombos mais doloridos são aqueles cuja alma tropeça. foi com medo e assombro que entendi que as pessoas usam máscaras pelo mundo e que de alguma forma todas elas caem. e foi com a sua sabedoria e discernimento que compreendi: Graças à Deus que caem!

7 comentários:

Ana Luísa disse...

Ai Flá, sabe que evito pensar na vida adulta porque sempre me irrito, né? HAHAHA. Como não tem como me livrar dela mesmo, prefiro focar no viver e filosofar menos, pra não pirar o cabeção.. Porque se a gente parar pra pensar, amiga, a gente desiste, isso sim!
Beijo

Stella Rodrigues disse...

meus poetas, cadê? Sinto falta dos seus escritos! A nostalgia que não cabe na palma da mão.

Bruna Gabriela disse...

Nem sei como dizer o tanto que me encaixei neste texto.
Os venenos destilados na vida adulta são péssimos.
Realmente nada melhor do que a vida na infância.

Paloma Engelke disse...

Ai, Flá, eu sempre tive medo de crescer por causa disso. Mas sabe que agora nem parece tão ruim? Acho que a gente só precisa aprender a aproveitar as partes boas. Bjos

Helen Araújo disse...

Sensacional! deu saudade de tanta coisa, medo de ficar cada dia mais longe da inocência dos tempos de infância, de ver só o lado bom da família e amigos, como se todos fossem felizes 100% do tempo...
Texto muito bom! Abraço!

Hospício Temporário disse...

De uma forma tão simples você dá tanto sentido a vida, desvenda pessoas e relações. Parabéns.

Chapeleira Maluca disse...

Você traduziu meus pensamentos! Eu me auto-diagnostiquei com complexo de Peter Pan, porque eu tinha (ainda tenho) um medo terrível de crescer. Eu me agarrava na minha mãe e chorava. É sério.

coelhosdechapeu.blogspot.com.br