sábado, 20 de abril de 2013

entre goles e garfadas


eu sempre bebi o amor de um gole só.

acreditei a minha vida inteira que amor de verdade é aquele que lenine tão lindamente transformou em versos cantando "avassalador/chega sem avisar/ toma de assalto atropela/ vela de incendiar". sempre achei que amor é uma entrega antes que doce, maluca, endoidecida e despreparada que toma mente, corpo e alma de um só golpe. pensava no amor feito chama acesa - e nunca pensei em vê-la se apagar.
minhas amigas haviam me feito pensar em outros tipos uma porção de vezes. uma delas, especificadamente, ficou na minha memória. ela uma vez, de maneira muito doce me disse que acreditava que o amor podia ser construído, tijolo a tijolo, devagarzinho e então se transformar em uma casa sólida, de alicerces permanentes e seguros. lembro de ter discordado mas ficado quieta, porque nunca fui de bater de frente e temia que o tema virasse discussão. virei a cabeça pensando que definitivamente não. amor de conta-gotas? que triste a vida dos que optaram por esse prêmio de consolação. 
e então o tempo passou e a fonte de onde eu bebia meu amor sôfrego parou de jorrar. e aí eu parei pra pensar. quem bebe o amor de um gole só corre o risco de ter sede. já que as associações estão espalhadas pela mesa, me lembrei que eu costumo deixar sempre meu pedaço favorito para o final e assim saboreio melhor cada garfada. o último pedaço escolhido sempre me deixa com vontade de ter mais. aqueles que comemos na pressa deixam de ser memoráveis e marcantes, nunca são especiais e ainda nos fazem correr o risco de ter uma indigestão logo depois. e talvez não seja assim tão ruim ter um amor conta-gotas, porque assim a gente vê com antecedência que o líquido está acabando, tem mais tempo pra repor...
associações ridículas deixadas de lado, me surpreendi pensando que talvez amar devagar seja bom. aquele amor que começa com a cabeça, abraça o corpo pra só depois envolver o coração parece realmente mais bem calculado e arquitetado, mais preparado pra ser duradouro e feliz. talvez esse seja o amor dos maduros e talvez este fosse o último passo que preciso dar pra deixar de vez a sombra da adolescência lado. já não era sem tempo. talvez não seja tão ruim assim amadurecer.
(agora é aprender a beber)

10 comentários:

Luiza disse...

Muito bom guria, tuas análises e tudo. Fiquei pensando aqui o que eu prefiro. Acho que amor bom é aquele que te pega de jeito, mas que ainda assim a gente aprende com ele a cada dia, adiciona mais detalhes, mais carinho e compreensão. Tijolo por tijolo pode demorar muito, tirar a graça, mas também pode fortalecer, tornar sólido o que virá pela frente. Que a gente saiba amar, além de beber, seja qual for o jeito. um beijo

Gabriela, disse...

Flá, achei um amor teu texto e tuas comparações me fizeram pensar. O amor que eu tenho pelo meu namorado foi construído assim, aos poucos. Amor conta-gotas. E é, realmente, o melhor deles, pois vamos construindo a cada dia mais um pedacinho de algo que será indestrutível! :)
Beijo.

Elisa Mello disse...

Caramba, muito bom esse seu texto!
"quem bebe o amor de um gole só corre o risco de ter sede." lindolindo
:*

Helena disse...

Não sei o que gostei mais, a primeira frase ou o texto todo. Copiei no PC pois me encontrei nele.
Parabéns, muito bom.

Cássia Vicentin disse...

Já tive sede várias vezes de amor, e foi bem triste ver que, por tanta vontade de beber, acabei sem nada.

Antônio LaCarne disse...

eu sempre bebi o amor de um gole só também. mas as dores me partiram ao meu e sigo aqui, com olhos abertos e ouvidos atentos.

beijo.

Thay disse...

Lindo, como sempre! E gostei das suas analogias, foram muito bem escolhidas! E devo dizer que amor, pra mim, também não servia se fosse esse de pouquinho. Queria um que me tomasse de todo, na hora. Mas com a idade (haha) a gente começa a perceber que de pouquinho em pouquinho, ou de tijolo em tijolo, as coisas ficam muito mais saborosas. :)

Ana Luísa disse...

Amiga, acho que a melhor opção é o sonho de misturar as duas coisas! Algo que no começo a gente dê vários goles de perder o ar, e depois começa a lidar calmamente com aquilo, no conta-gotas!
E assim, tudo funciona lindamente!
<3

Letícia Giraldelli disse...

Flá, parei para entender o lado da sua amiga e sabe, eu entendi o que ela quis dizer.... Mas não sei se consigo ir assim, de manso. Calma, óbvio que não vou conhecer alguém num dia e no outro querer casar mas af, conta-gotas? Gosto mesmo de quando eu conheço alguém e surto só com a respiração pertinho!
E de verdade, prefiro um amor como um raio (rápido e intenso) do que um amor morno... Tenho amigas que namoram pra testar, sabe? "Ah, o carinha é legal comigo, faz de tudo por mim, vou tentar..." e porra, eu não consigo ser assim. Pra mim tem que me deixar sem chão, tenho que ter certeza que é com essa pessoa que quero estar. (POR ISSO TÔ SOZINHA, AF) haha

beijos

Ishimoto, Thais disse...

Acabei de escrever sobre amor e vim parar nesse texto, por acaso.
Afinal, quem pode dizer o que é o amor?