terça-feira, 20 de março de 2012

particularidades de sampa

centro de são paulo, avenida são joão, 10:10 da manhã.

o verão já terminou mas ainda faz um sol de rachar na cidade. eu não sei por qual razão, mas aqui sempre convivi com os extremos: quando é frio, é muito; quando é calor, maior ainda. o chão da são joão só dos pedrestes (e dos carros apressados de polícia) continua insuportavelmente disforme e infelizmente sujo, com alguns lixos jogados em determinados cantos e um ácido aroma de xixi que parece impregnado por ali. sempre que passo, penso "isso aqui podia ser tão bonito, isso aqui podia ser bem cuidado, podia ser recife antigo", porque o ambiente todo me lembra aquele canto gostoso do nordeste, com barzinhos e papo bom, noite animada, artistas de rua. mas que nada. as autoridades não se interessam e o povo mesmo não cuida. já vi um monte de plantinha ser plantada no dia, pra no outro já serem roubadas e vendidas na esquina da frente. é uma tristeza.
mas não vim aqui pra lamento. no corredor da são joão só dos pedestres tem uma galera hippie, toda tatuada, que vende de tudo: colar, brinco, cachimbo, disco de vinil antigo, quadros e cachimbos. tem também uns africanos que vendem umas máscaras lindas, gringos devem pagar caríssimo. já vi cenas que me marcaram por ali, como num dia em que chovia fino e frio e o tiozinho segurava um guarda chuva maltrapilho, dividindo espaço com um vira-lata bonitinho. outra vez foram as crianças, duas, vestidas cheias de correntinhas feitas de semente, pulseirinha do reggae de pano brincando de casinha, com uma boneca que só tinha a cabeça e outra sujinha, também de pano. mas surpresa mesmo foi essa semana. um rapaz de óculos e vestido de social colocou ali, no meio da rua um som. isso mesmo. e potente! o mais chocante era o que tocava: música clássica. inusitadíssimo. todos que passam viram, olham, param chocados. dá uma sensação esquisita, inebria a alma, cala o coração. eu me senti como em cena de filme, aquele monte de formiguinha indo e vindo trabalho, trabalho, trabalho. tinha fila pra comprar o tal cd, você entende? centro de são paulo, ambiente decadente, drogas, povo cansado, trabalhador, apaixonados, fissurados por música clássica. o povo gosta de cultura, basta ter acesso à ela.

eu mesma comprei um. não vejo a hora de chegar em casa e botar pra ouvir.

12 comentários:

aline disse...

como eu sempre digo, se um dia você acordar querendo dar valor à sua vida, vá ao centro de sp, mas passe pelo centro sujo, fedido, impregnado com misérias. ali sim, a vida passa com mais pena, com mais dor.
no lugar da cracolândia agora tem especulação imobiliária. no lugar da avenida ipiranga com a são joão, lugar que fazia os corações despertarem, existe um tanto de solidão.

lendo seu texto, me deu saudade de casa, mas é uma saudadezinha tão tranquila, de uma coisa que eu acho que nunca vivi.

amnésia dá medo mesmo! imagina só... eu tenho pânico só de pensar.

um beijo!

Ana Luísa disse...

São Paulo é muito poética! Eu amo essa cidade, meu Deus!!
Ouviu o cd já?? :)
Beijo!

Gaby. disse...

Enquanto voce lembra do Recife Antigo andando por Sampa, eu olho as avenidas pequenas de São Luís e lembro o quão maior poderia ser tudo, se fosse em São Paulo.
Ah, essa cidade é o amor e o ódio, e ainda assim encantadora.
Abraço.

Nina Vieira disse...

Eu me lembro e dá saudade. Eu era hipster naquela época e nem sabia.

Anna Vitória disse...

Eu sou apaixonadíssima por São Paulo, muito, muito, muito! Até o mais feio e sujo fica bonito, porque contraste com o que é bonito de verdade e fica uma coisa tão desigual, mas ao mesmo tempo orquestrada naquela cidade cinza e linda que ai, meu coração até acelera!
beijo

Renata Bittes disse...

Ahh eu queria conhecer mais de São Paulo. Fui duas vezes, mas só fim de semana =/ Mas semestre q vem, qnd for contratada (Deus queira!) eu quero passar algum feriado ae.

Carolda disse...

Também adoro São Paulo! Me senti pelas ruas daí enquanto te lia... e olha, música clássica é meu ópio. Vou parar em outra galáxia (:

Maíra disse...

concordo com a gaby "Ah, essa cidade é o amor e o ódio, e ainda assim encantadora."
é engraçado, eu não gosto de são paulo, acho uma cidade fria e triste para morar, eu não moraria lá, mas o que a gaby falou é verdade, é uma cidade encantadora, simplesmente diferente. Eu não gosto, mas não posso deixar de afirmar que é uma cidade poética, uma cidade incrivel. Parece que tudo acontece em são paulo, mesmo sendo coisas loucamente diferente e estranhas, mas TUDO acontece em são paulo! isso que me faz amar a cidade.


adorei o post!
Boa quinta-feira. Beijos :*

Stella Rodrigues disse...

Quem dera eu ter acesso sempre a correria de sp, meu namorado é dai, e apesar do povo ser mal educado, DE MAIS. o Lugar me encanta.

Thay disse...

Queria conhecer São Paulo direito, pra poder saber qual impressão a cidade teria em meus olhos - ainda mais com essa visão de arquiteta e urbanista.

O que me chamou atenção no que você escreveu foi o caso das plantinhas roubadas: aqui em Curitiba acontecia a mesma coisa nos calçadões do centro. A prefeitura as plantava e logo os pedestres as levavam embora, sabe-se lá para fazer o quê. Mas de tanto a prefeitura insistir e plantar mais flores toda vez que as antigas sumiam, a população começou a entender que aquele era o lugar em que deveriam ficar. Acho que essa história tem ares de lenda urbana, mas gosto dela. =]

Beijo!

Solange Maia disse...

alguma coisa acontece no meu coração......

belíssimo texto !!!!
beijo

del disse...

Sampa, essa moça linda que roubou meu coração! Ai, ai... Sou completa apaixonada, não adianta. Faz um tempinho que não vou ao centro e, mesmo tão abandonado, causa saudades. Com certeza a prefeitura deveria olhar mais pra um pedaço tão histórico da cidade. O descaso chega a doer de tão injusto.

Que pena eu ter pedido essa intervenção urbana! Gosto tanto... é motivo pra voltar logo ao centrão :)