sábado, 22 de dezembro de 2018

pós-parto

quando ela nasceu, meu mundo virou de cabeça para baixo.

não, eu não senti que ele começava a fazer todo o sentido naquele momento. para falar a verdade, o momento em si é tão relativo! é uma curva fora do tempo, uma viagem com o efeito mais louco das drogas - é o barato mais louco que já "usei", visto que nunca me droguei. você observa aquilo tudo acontecendo e sabe da importância do que está sendo realizado, mas você não consegue ter consciência disso. é como se você deixasse seu corpo e o observasse de fora. pelo menos foi assim comigo.

os dias no hospital também fazem parte da curva fora do tempo. é o êxtase da anestesia, de todo mundo visitando, uma energia boa, mas tão boa, que nos enche de energia enquanto ela nos é sugada durante as mamadas que acontecem a cada três horas. às vezes duas. às vezes menos.

mas quando chegamos em casa tudo muda, tudo vira de fato de cabeça pra baixo e eu comecei a achar que de alguma forma eu tinha vindo com algum defeito, uma vez que eu não me sentia completa como todo mundo diz que se sente. muito pelo contrário. eu já não sabia mais quem eu era.

o tempo (ele novamente!) passa a ser contado de outra forma, a gente mal distingue quando é dia e quando é noite. a mente está cansada, o corpo dói, amamentar não é nem de longe parecido com aquilo que se viu nas propagandas e seu dia é preenchido com fraldas, banhos assustadores e um corpinho minúsculo que depende totalmente de você. como é que eu podia me sentir mais completa? impossível, uma vez que ela nascia e uma parte minha desaparecia. eu de fato deixei de ser eu, quem eu conhecia, durante todos aqueles primeiros dias, eu juro, morreu.

mas com o tempo ela me fez renascer e por isso sempre serei grata, pois sou tão melhor do que fui antes dela! ela de fato fez com que meu mundo virasse de cabeça pra baixo e foi só com o tempo -  e não, não imediatamente! - que eu entendi que ele faz muito mais sentido assim.  

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