domingo, 8 de outubro de 2017

procura-se

tenho vontade de escrever o tempo todo. 

como se minha vida, ou o início da nova vida que escolhi ter, fosse muito importante e eu precisasse documentá-la para relembrar disso tudo adiante. ainda tenho um diário que escrevo numa frequência cada vez mais pífia. sou interrompida a todo tempo. a máquina de lavar cantando avisando que já acabou, o cesto de roupas transbordando no escritório, me lembrando que tenho que tirar as roupas do varal para a nova leva, a lista de compras em cima do balcão me lembrando que preciso comprar shampoo urgente se quiser ir com cabelos limpos trabalhar amanhã. e eu não quero trabalhar amanhã, mas isso a gente joga na gaveta do pensamento e deixa de castigo, feito criança malcriada. não sobra tempo pra nada. 

ontem me olhei no espelho, deu vontade de dar uma maquiada. eu não ia sair com o marido, não ia pra festa importante, tava praticamente cumprindo uma missão ao ir em um chá de bebê naquela tarde chuvosa, mas eu resolvi que precisava me arrumar. olhar pra mim. cuidar de mim. eu tenho vontade de cuidar dele o tempo todo, tenho vontade de deixar a casa arrumada noventa por cento do tempo, quero que corra tudo bem no trabalho. tem sempre alguma coisa pra comprar: o espelho da sala de jantar, o vidro da varanda, o sabonete líquido do lavabo. não sobra mais para os meus perfumes. que dirá pras minhas maquiagens. dia desses comprei sapato obrigada, porque com a despedida do inverno me lembrei que precisava de sapatilhas. necessidade. amenidades e mimos? quando? 

tenho a sensação que são tantas coisas que chegam antes de mim que antes de dormir me procuro. cadê eu, onde eu fui parar? arranjei tempo pra trabalhar mais dez aulas por semana - ou a necessidade arranjou - mas não consigo enfiar 45 min de esteira na rotina. que é mais uma obrigação, diga-se de passagem. vontade mesmo? deitar na cama até tarde, voltar pra cancún, namorar o marido quando der vontade, ler até cansar, escrever no blog, ir ao cinema, sétima temporada de dowtown abbey, meu avô entrando com as alianças no meu casamento, um filho pra me deixar ainda mais atarefada. 

quando a gente coloca sonho dentro da realidade?
quando foi que eu me tornei tudo aquilo que eu julguei errado?




Um comentário:

josé disse...

que relato interessante.... to refletindo ate agora sobre!
a propósito,seu blog é um amorzinho!