domingo, 9 de junho de 2013

felicidade medida

era uma menina de manias escabrunhosas.

existem pessoas com manias, mas ela reunia todas elas. pode parecer besteira dito assim, mas persista um pouco mais neste texto e você vai entender. veja bem, para começar ela se maldizia toda vez que abria os olhos antes de dizer algumas frases de positividade. sim, você entendeu bem, em sua mente endoidecida ela não podia abrir os olhos sem dizer "obrigada pela noite de sono, pela cama em que durmo e pelo dia que terei pela frente. que seja bom". se não dissesse, puff, era porque o ruim aconteceria. ela já desistia logo ali, segundos antes de abrir os olhos, de ter um dia bom. mas se esses primeiros segundos ocorressem da maneira esperada, ela ia direto para o banho e se cantava uma música que tinha feito para si enquanto se ensaboava. e se o trecho da música acabasse antes dela terminar de se ensaboar os seus dias também não seriam lá tão bons assim. assim como não seriam bons caso não chegasse a tempo de pegar o metrô enquanto o via pela escada, ou se não se lembrasse de mascar três vezes o chiclete de um lado antes de passar para o outro logo quando o colocava na boca.

não teria um dia bom caso quebrasse uma unha (e sofria de unhas fracas), caso pegasse o primeiro farol fechado ou se não batesse três vezes na cadeira\acento em que se sentava quando passava pessoa com qualquer tipo de doença ou deficiência. e se por fim, conseguisse fazer tudo certo, beijava as duas mãos antes de dormir e rezar e sentia uma paz enorme, um orgulho de si própria, uma vontade de dizer para todo mundo que podia ser insignificante aos olhos deles mas que existia e que se bastava, que não precisava de mais nada, pois quando ela conseguia realizar todas as suas manias se sentia uma pessoa boa. se sentia a pessoa melhor do mundo, de coração gigante e achava até que tinha capacidade pra mudar o mundo, a começar pela sua vida, pois ela tinha feito tudo certo e merecia ser feliz sempre e não só naqueles dias em que sua memória não a boicotava. e então fazia a oração da noite e tentava dormir, com a felicidade dançando silenciosa dentro de si, apaixonando-se pela insônia e demorando pra adormecer. ela não entendia que era ela mesma quem construía as barreiras para ultrapassar, ela não entendia que podia fazer outro caminho, ela não entendia que criava muralhas cada vez mais altas para não ser capaz de pular. era uma menina de manias escabrunhosas. mas no fundo, conseguia ser feliz.

4 comentários:

Tary disse...

Texto excelente, como sempre. Não sou nada parecida com a menina do texto, mas não duvido que ela seja feliz. E se apaixonar pela insônia é algo que eu faço com frequência, viu? Beijos, florzinha!

Bruna Gabriela disse...

Consegui ser feliz de um modo bem estranho... Vivia de um jeito que só ela entendia.

Belo texto.
Ps: só não entendi a menina (rs)

Nathália Souza disse...

Não entendo como você sempre consegue escrever um pouquinho de mim nas suas letras. Coisa linda!

Kamilla Barcelos disse...

Eu sou cheia das manias. Sempre tento ver sinal pessimista no meu dia se algo der errado.