sábado, 15 de junho de 2013

dos desenlaces

existem pessoas que eu sinto um amor enorme pelo que foram.

pensei nisso outro dia, vendo um punhado de fotografias. tantos rostos conhecidos, enchendo meu coração de amor. consegui lembrar do pedaço da minha vida que cada um deles preencheu sem nenhuma dificuldade, como se a fotografia, feito música, fosse conexão direta para o passado, para aquele exato dia, preciso instante, em que a foto foi tirada. mais do que rostos e sorrisos, aquelas fotos são demonstração de sentimento, de afeto (e por quê não de raiva? ciúme?). olhar para elas foi lembrar do dia em que pedimos esfihas e voltamos andando da casa da amiga, foi reviver o dia em que acendemos fogueira em plena rua vazia da praia (onde alguns olhares se cruzavam com mais ambição do que simples amizade), foi ouvir de novo músicas cantadas às nove da noite no meio de uma piscina fria pelo inverno e sentir de novo toda a turbulência de emoções e os gritos de felicidade que saíam do corpo em forma de abraço, de música, de gargalhada. 

mas então eu pensei em quando revejo essas pessoas ao vivo e à cores. e o quanto a lembrança de algumas delas me parece mais viva em uma foto estática do que ali, na minha frente, falando, conversando e existindo. a verdade é essa: nós nos afastamos. é uma coisa natural da vida, não há controle, nós mudamos. não tem como amarrar a vida e a nossa personalidade em um nó, não há como brecarmo-nos como fazemos em uma câmera cyber shot. nós continuamos existindo e isso implica em diferenças, pois a vida de cada um de nós resolveu fazer o seu caminho e isso muda a gente. não há certo ou errado nesse jogo, a amizade foi feita pra existir não pra se contar. e de repente, aqueles laços que nos uniam já não existem mais. como continuar? 

é por isso o apego pela lembrança, é por isso que nossos assuntos, quando se encontram por acaso na fila do pão na esquina, ou no corredor de um shopping center são sempre os mesmos. rápidas perguntas educadas sobre como estamos para logo depois nos apegarmos naquilo que fomos. onde anda fulano? como está ciclano? você ainda pinta? escutei outro dia aquela música da ana carolina e lembrei da gente. vê? eu lembrei da gente. porque ainda existe amor e é esse o amor que nos move. porque aquelas pessoas conhecerem pedaços de nós, que nós mesmos não conhecemos mais. porque aquelas pessoas conheceram quem nós fomos em algum momento do passado. e é por isso que meu coração vira sol cada vez que vejo cada uma daquelas fotos. os rostos de cada uma delas. e cada vez que encontro de supetão alguma dessas pessoas nas ruas. porque eu posso não amar mais o que cada uma delas se tornou, mas vou amar para sempre o que elas uma dia foram (e por isso são e serão) para mim. 

5 comentários:

Ana Luísa disse...

"Posso não amar o que cada uma delas se tornou, mas vou amar pra sempre o que elas um dia foram pra mim". Perfeito, amiga. Porque a vida afasta e muda as pessoas, mas jamais consegue mudar o passado. E eu também me sinto bem quando vejo fotos com meus amigos no passado.. Porque lembro que naquele momento eles eram tudo pra mim, e como isso me fazia feliz..
"O que vai ficar na fotografia são os laços invisíveis que havia."
E é isso aí!
Beijos! <3

Bruna Gabriela disse...

Lindo demais.

Marília Macedo disse...

poético e profundo. Lindo, Flá!

Emilie S. disse...

é porque algumas vezes as pessoas mudam. e a foto registra um momento em específico. e a vida é tão inconstante...
»»» Emilie Escreve

Renata Bittes disse...

Tenho que registar, primeiro, que seu blog está cada vez mais lindo.

E também quero deixar escrito que também me apego as lembranças e me dá uma dor no peito quando encontro pessoas, tão queridas no passado, hoje, mas que não fazem mais muito sentido no meu quebra-cabeça. E nem eu no quebra-cabeça delas.