quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

não sou leve

tem gente que é leve o tempo todo né?

tenho colegas - ia escrever "amigas", mas após breve consulta ao michaelis do uol descobri que não é muito pertinente chamá-las por esse adjetivo - que são leves 100% do tempo. ou 99%, que seja. olha, que elas sejam leves 70% do tempo, ainda estão em vantagem gigantesca. riem fácil. acham graça de piadas toscas, bebem até cair e encontram naqueles goles de cerveja ou tragada da danada uma alegria que eu nunca encontrei. esclarecimento: nunca fumei maconha, mas me parece uma alegria meio produzida, sabe? por mais natural que insistam em rotulá-la, pra mim é das alegrias mais industrializadas. "hã, hoje vou fumar, ficar feliz, vou ficar de boa." dã. vai dizer que não é felicidade artificial? 

enfim, que seja artificial, é um preço que pago por escolher estar sóbria 99,99% do tempo. eu vejo tudo. vejo os olhos do meu aluno do oitavo ano caídos ao perceber que uma mãe omissa não enxerga metade do que ele é. vejo aquela menininha linda puxando uma mala velha num corpinho tão jovem, tão sozinha na rua, indo não sei onde de não sei onde. vejo meu noivo ser passado pra trás por um filho da puta, tomando seu tempo, seu sossego e quase dez mil reais. vejo minha diretora, sempre tão pra cima - e tão alheia! - se emocionar ao pensar que já foi jovem e que isso foi há muito tempo e que hoje as rugas a maltratam muito mais que a mocinha de 30 anos poderia imaginar. eu me vejo no espelho, uma família linda, dois bons empregos, uma aliança de ouro na mão direita e então entendo que as vezes me parece errado ser tão feliz. 

uma grande amiga - essa eu encho o peito para escrever, podia até colocar em letra maiúscula - em uma das nossas últimas grandes filosofadas em conjunto, me disse que aquela música da sandy, abri os olhos, diz muito de quem somos. "abri os olhos, não consigo mais fechar, assisto em silêncio, até o que eu não quero enxergar". esta sou eu. há quem me entenda no mundo. quem enxergue seu peso, quem sinta suas cicatrizes, quem deixe as emoções tomarem o corpo. cazuza entendia, mas morreu e apesar da genialidade tenho a sensação de que era um idiota como ser humano, apesar de tão incrível como artista. maria ribeiro é uma das que mais se aproxima do meu modo de ver o mundo. ela sempre foi uma das minhas favoritas em saia justa e comprei ainda hoje seu trinta e oito e meio na amazon e já devorei mais da metade. ela é pesadinha como eu, dando vazão àsao suas insegurança, suas falhas, seus medos, suas admirações. talvez seja um pouco perturbada e mais ainda do que eu, pois faz análise duas vezes por semana há doze anos e eu mandei minha terceira terapeuta para a cucuia há meses. ou apenas seja mais rica, não sei. 

o fato é: não sou leve. não posso me comprometer a ser se isso é colocar o cabresto nos meus olhos. a ignorância pode ser de fato uma benção um milhão de vezes, mas eu (ainda acho) que prefiro morrer sabendo. até porque, um pouquinho de peso faz com que você não precise tragar maconha pra achar felicidade com data, hora e local, mas te faz perceber aquelas duas crianças rindo gostoso no pátio da escola, aquele menino de 15 anos cantando baixinho"hold back the river" no ouvido da menina da frente e aquele casal de idosos no shopping andando de mãos dadas enquanto compartilham um sorvete. acho que é isso. sou pesadinha, mas acho que é um peso de conteúdo, um peso que eu meço por poder ver. dá até pra soltar a linha e voar feito balão pelas nuvens por aí - mas tenho uma âncora sempre fincada ao chão. o preço eu pago diariamente, quando me olho no espelho, quando a minha balança interior mede meu peso, quando uma colega me oferece: "para um pouco seu mundo, vamos descer" e eu não hesito antes de responder... absolutamente, não. 

9 comentários:

Ricardo Monteiro disse...

E é exatamente este peso que te deixa segura com os pés no chão. A gente precisa ser leve, mas viver com a cabeça nas nuvens nunca foi saudável. Então, a gente precisa mesmo é esta aqui e as vezes, com a cabeça lá, mas com os pés sempre aqui. hehe

Boa noite, bjos.

Erica de Paula disse...

Menina, eu adoro seu blog! Acompanho sempre, mas nunca comentei. Esse texto é tudo. Eu não sou leve, nunca serei! Me identifico muito e também adoro a Maria Ribeiro! Devorei seu " Trinta e Oito e Meio".

Monique Químbely disse...

eu costumo dizer que não é tão bom ser pé no chão, pelo menos não pra mim. pessoas pés no chão tem consciência demais da realidade ao seu redor, tanto das partes boas quanto ruins, e isso nos dá medo - me dá medo -, porque eu não me iludo com o futuro, eu sei o quanto cruel ele pode ser, e então eu morro de medo. Relatos de atos ruins dos seres humanos para com os outros me deixa cheia de desesperança e certo desespero, porque eu to no meio de tudo isso, quem eu amo tá no meio tb, e eu não posso fazer nada significativo pra mudar. pode soar exagerado, mas, mesmo sabendo que coisas boas demais existem, eu sei demais que eu pouco vou poder experimentar delas, que eu pouco vou poder oferecê-las a quem amo. então eu não costumo julgar quem escolhe fugir disso tudo, mas admiro muito quem sabe se manter em equilíbrio, sabe. particularmente, acho que não sou do tipo que põe uma venda nos olhos, seja com drogas ou com minha imaginação autonomamente, porque eu sempre escolho saber, tentar não generalizar, ver através. Mas não acho que quem use drogas e coisas do tipo não esteja à par da realidade - às vezes é justamente por isso que elas seguem por esse caminho (apesar de que a ideia de não estar no controle me seja contrária e mesmo assim eu tenho curiosidade por ela)-, nem que elas não saibam da real felicidade sabe (às vezes é só por diversão, em busca de uma passageira mesmo, não quer dizer necessariamente que depois elas não tenham nenhuma mais concreta para a qual voltarem, eu acho). acho que é tudo uma questão de não se apoiar demais em uma coisa só.
desculpa pelo texto como comentário .-.
ps: respondi seu comentário lá no blog ;)
bjs

Larissa Fonseca disse...

Também não sou leve, pelo menos não o tempo todo ou forçadamente. Nenhuma propaganda ou modismo me faz acreditar que felicidade comprada vale a pena. Além do mais, o peso que carregamos por enxergar a realidade como ela é até que bom, sabe? Porque, apesar de tomarmos para nós as dores dos outros, sentimos uma necessidade muito grande de mudar o mundo, nem que seja com pequenos gestos. Essa felicidade que não é egoísta, que abraça os outros e os sonhos dos outros (sem abrir mão do "eu", claro), é o verdadeiro sentimento.

Cris disse...

Acho que eu sou um pouco assim também. Gosto de ficar feliz com coisas simples e que pra maioria é boba. Sempre fui assim e poucas pessoas entenderam. A maioria acha que sou uma senhora presa num corpo de novinha (já não muito novinha), mas nunca encarei dessa forma. Só gosto de ver o mundo a minha maneira, valorizar o que me faz bem. Que seja um vento balançando as folhas verdes das árvores em outubro, ou que seja ficar imaginando sobre viagem no tempo. Gosto de ser assim rs
Beijos! =**

Camila Faria disse...

Engraçado, eu acho que a gente tem diferentes versões do que é ser leve. Eu vivo pregando uma vida mais leve ~ mas não leve de conteúdo, pelo contrário. Eu gosto da leveza de quem não leva tudo tão a sério (nem a si mesmo), de quem encontra beleza nas coisas mais simples da vida. Ser leve no sentido de ser menos preocupado com o que os outros vão pensar e prestar mais atenção no que a gente quer pra nossa vida. Nesse sentido, eu tento ser mais leve que uma pluma.

Mas, como a pessoa super realista e pé no chão que sou, super entendo o que você quis dizer com o (belíssimo)texto.

Beijo, beijo. :*

Lu Sam disse...

Me identifiquei bastante com as tuas palavras! Às vezes quando sinto todo esse peso dá vontade de ser aquelabmenina besta de uns anos atrás que gargalhava de tanta besteira... E é exatamente como na música mesmo, não consigo mais evitar sentir em mim as tantas dores do mundo...
Beijos.

Carolina Romano disse...

Eu sou esse mix de leveza com os pés no chão
bjs

Yuu disse...

A ignorância é realmente uma benção em algumas situações, mas deus me livre de não ser capaz de ver através das camadas das pessoas. Afinal, é isso que me permite criar empatia e é isso que me incentiva a ser uma pessoa mais gentil todos os dias. Prefiro ter ciência do que acontece ao meu redor, mesmo que isso me faça deitar em posição fetal ao final do dia, e prefiro ter controle sobre mim mesma até nos momentos de felicidade, e mesmo que sejam poucos ao menos são reais, não induzidos. Sabe, eu também não sou leve, então você não está só. Vamos ficar bem, pois tenho pra mim que as melhores pessoas são assim.

Beijinhos!