sábado, 5 de julho de 2014

eu quero chorar feito um bebê

Nasci em São Paulo, 26 de setembro de 1989, por volta das oito horas da noite e com quase 5kg. Automaticamente, nasci com três estrelas no peito. Tri campeã mundial sem nunca ter piscado os olhos. Ou pisado num campo.
 
Naquele ano não teve copa, porém, no ano seguinte teve. Não importa, eu ainda não tinha completado nem um ano e não tenho memória nenhuma daquele instante. Mas teve copa em 94 e naquela época eu já estava com quase cinco e me lembro de algumas coisas, como o lance do Bebeto dançando o nana neném, ou do Romário todo moderno com aquele brinquinho. Lembro do Baggio perdendo o pênalti também e do Galvão Bueno gritando É TETRAAA, pulando descontroladamente ao lado do Pelé. Lembro da alegria nas ruas, das calçadas pintadas e do uniforme daquela copa. Ou não lembro, não sei, essas imagens já foram repetidas tantas vezes na televisão que pode ser que as tenha absorvido depois.

 
Mas a copa me pegou mesmo em 98. Eu era uma menina de 9 anos e o Neymar do meu tempo era Ronaldo. O melhor do mundo e o mais brilhante que fazia aquelas arrancadas incríveis do meio de campo e ia convidando pra dançar o vira um, dois e três jogadores do time adversário de uma só vez. Era um amor louco que foi crescendo e crescendo e cujo ápice foi atingido em uma semifinal Brasil x Holanda, onde fomos para os pênaltis, pois o jogo tinha terminado um a um. Eu não assisti nada daquele final. Foi ali que o amor louco, descontrolado e sem juízo pelo futebol e pela seleção, nasceram em mim. Sentei na salinha quieta dos meus avós e deitada em cima de uma almofada e com as mãos em prece rezando para que Deus (pelo amor de Deus!) ajudasse Taffarel naquelas defesas. Deu certo. Meu avô foi me buscar, quase me pegando pelo colo, enxugando minhas lágrimas e dizendo que ia dar tudo certo, estávamos na final! Seríamos campeões! E então eu chorava de alegria, vendo toda aquela agonia se transformar em uma certeza. Que não aconteceu. Todos sabemos, meu ídolo teve algum piripaque e não, nós não fomos campeões. Chorei feito criança, mas naquela época, eu ainda era uma.
(Nota importante: Não consegui superar aquela derrota até hoje. Meu ódio pela França foi tão grande, durante tanto tempo, que eu jurava jamais pisar em Paris. Consegui achar a Torre Eiffel feia e não entendia porque todo mundo achava ela tão maravilhosa, afinal, ela não era tão linda assim. O tempo me fez amadurecer, e hoje até passaria por lá, sem grandes problemas. Mas juro que se encontro com Zidane sou capaz de dar uma cusparada.)
 
Já em 2002 eu tinha meus 13 anos! Meu jogador favorito tinha recuperado o seu prestígio, mas muitos ainda duvidavam dele. Felipão não levou Romário e nossa seleção não era lá uma das mais favoritas. Mas meu coração estava cheio a cada vitória. Desenvolvi táticas especialmente neste ano. Quando sentei neste lado do sofá jogo passado, deu certo. Mãe! Deixa eu sentar aí! Se eu ficar com os membros cruzados consigo fecho o gol e se permaneço com as pernas abertas deixo o caminho livre para a minha seleção. Ronaldo sozinho na grande área, pai! Descruza as pernas! O que eu sou capaz de fazer para ter essa taça já que não posso entrar em campo e abalar todo mundo com o meu potencial? Sis, que tal ficarmos um mês sem pizza? Deu certo. Os lugares trocados no sofá, as pernas cruzadas e descruzadas, as promessas. Cravamos a quinta estrela no peito.

 
Não dá pra colocar em palavras o quanto fui feliz naquele dia. Por mais que eu tente, só os apaixonados por futebol e que viveram aquele momento me compreendem ou compreenderão. Naquela época eu era só uma menina e corrupção era apenas mais uma palavra, mas eu já entendia o essencial. Ser campeão mundial pela quinta vez fazia com que todo mundo (ou pelo menos grande parte) vissem o Brasil como eu sempre vi: com orgulho. Era todo mundo gritando nas ruas, o verde amarelo pintando uma nação inteira, carros buzinando por todo lado com uma felicidade que não cabia em canto algum. Meu carro estava naquela algazarra e ainda consigo lembrar dos olhinhos azuis de meu avô português marejados pela nossa 5a estrela. Chorei como criança ali, mas naquela época eu já era uma adolescente.

Não deu certo em 2006 ou 2010. Sucumbi aos desejos alheios na primeira copa e com 17 anos assisti a quase todos os jogos com os amigos e sua vibe negativa, maldizendo Ronaldo e não querendo trocar de lugar no sofá. Em 2010, também não deu certo. Meu pai estava trabalhando no dia da derrota e minha mãe me convenceu a ir até lá pra assistir o jogo com ele. Eu já sabia naquela época que não posso assistir copa fora de casa e aos 21 anos, lá estava eu, chorando naquela padaria. Um senhor melancólico, meio que para me consolar disse: "Filha, não chore não! Pense que você tem muitas copas para ver nosso Brasil ganhar. Esta pode muito bem ter sido a minha última." Chorei ainda mais apertado. Já era uma adulta e não tinha meu avô pra consolar.

Mas nessa copa, vai dar tudo certo. 2014 em casa, o Brasil todo unido porque todo mundo sabe que quando se trata de futebol somos os favoritos. Mas, para minha tristeza, nem todo mundo se empolgou feito eu. Misturam política com futebol e garantem que a Dilma é a dona da bola e que não vale a pena sofrer. Talvez. Jamais farei parte desse time e quase me desesperei no jogo entre Brasil e Chile (fica para o próximo post, ainda que com delay, porque aquele jogo é um caso a parte, caros amigos da rede globo!) e novamente no último ao ver nosso ídolo atual ser colocado fora da competição por uma entrada completamente criminosa.
 
Tá difícil. Nós todos sabemos. A Alemanha é osso duro de roer e passar pela Holanda e Argentina não será lá muito fácil. Mas a graça talvez esteja justamente nisso, nesse sofrimento louco que nos presenteia com uma gloriosa recompensa. Faz a gente valorizar mais, dar mais importância. Ter mais orgulho. Posso não ter certeza quanto à vitória, mas sei que já ganhamos da Alemanha uma vez e que Ronaldo ouviu duas vezes que não jogaria nunca mais, pra depois ser campeão do mundo. Sei que ganhamos uma copa sem Pelé. E sei que tenho uma 5a estrela no peito, assim como todos que nascem nesse exato minuto em solo brasileiro. Ou pelo menos até dia 13 de julho.

Chorei aos 24 anos em quase todos os jogos da seleção. Ao ouvir o hino nacional, ao ver gente se emocionando tanto quanto eu no telão. Você pode não entender os meus sentimentos, e se não entende, não se esforce. Não vale a pena. Você pode me perguntar: pra que tanto sofrimento? Mas sentimento não se explica e tenho pena de quem jamais vai entender. As lágrimas que quero derramar nos próximos dias são de pura felicidade e esse ápice quem não sente, não compreenderá. Eu tô na torcida feito maluca. Tem bandeirinha no carro, na unha, mas principalmente no coração. Tô prontinha, seleção. Aos 24 eu quero chorar que nem um bebê, por você.


 

4 comentários:

Juliana Rangel disse...

Curti muito as Copas quando era pequena. A de 2002 foi sensacional e a que mais me apaguei, nem foi porque me ganhou, mas porque tinha um time muito bom jogando com garra. Infelizmente esse ano não deu e sou uma das milhares que não compreendo o que aconteceu. Acredito que muitas chances virão, mas o grande problema foi tático e alguns jogadores não convocados fizeram falta. Uma pena, mas isso não diminuiu nem um pouco o brilho da Seleção que jogou muito nesses primeiros jogos. Não fui muito fanática nesta copa, mas tenho que concordar com o seu texto! Que aliás é uma declaração de amor muito linda viu? E ter fé que Brasil chegue ao terceiro lugar *--*

Gabriela Freitas disse...

Não lembro muito bem das outras copas, lembro do penta, de eu comemorar em casa mesmo sem ter certeza da importância que aquela quinta estrela tinha. Cheguei tarde (?) pra ler seu post, infelizmente a sexta estrela vai ter de esperar até 2018, mas tenho fé, já já ela vem.

http://www.novaperspectiva.com/

Bruna Araújo disse...

Infelizmente em 2014 não deu certo:(
Mas em 2018 estarei neste mesma torcida com você. Me emociono, grito, só não choro tanto, mas compartilho deste sentimento pelo Brasil e o seu futebol. Nada de misturar política com futebol.
Que venha 2018, e lá vamos nós de novo com o nosso hino "eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor" ♫.

Kamilla Barcelos disse...

Poxa, cheguei atrasada para eu dizer a você, Flá, que eu também estou torcendo por isso. Não foi como a gente pensou, mas tá aí mais um capítulo para as nossas vidas de Copa do Mundo. Que venha 2018!