domingo, 6 de abril de 2014

adultério

foi no meio de um café da manhã que ele se lembrou dela.
 
não tinha sonhado com ela, não tinha visto fotografia, muito menos revirado a caixa de e-mails na busca de algum que tivesse ficado por ali escondido. mas de alguma maneira quando sua companheira lhe deu um beijo na testa enquanto ele pegava a manteiga para passar no pão pedindo que ele a esperasse se trocar, seu corpo enrijeceu. foi como receber um choque, um tiro de lembrança atingindo-o com tamanha força que não conseguia pensar em mais nada além daquelas memórias. de repente não estava mais naquela cozinha, mas sim quatro anos antes, sentindo seu corpo ficar quente com a massagem da nuca que ela tão bem fazia, a bacia de pipoca no canto da cama e sua coxa tão perfeitamente alinhada com as dela. sentiu o estalar de um beijo e os lábios dela se demorarem nos seus, em uma troca tão gostosa de vontade e carinho como há tanto tempo não sentia. e então ela apoiava seu cotovelo na cama, posicionando as mãos de modo a segurar a cabeça e olhá-lo com aqueles olhos tão verdes, dizendo: "o que vai ser de nós, hein?".
era como um filme mudo, ele conseguia ler os seus lábios e então ajeitou uma mecha de cabelo dela atrás da orelha, fechando os olhos para lhe dar um beijo demorado e só assim conseguir encará-la de novo e dizer que não sabia, que também tinha medo e que de alguma forma tinha uma certeza de que tudo o que estavam vivendo ali duraria.
de repente conseguiu ver o dvd do donavon que passava na tv ali logo a frente, e tudo ganhou som enquanto ele cantava "she is my butterfly"e ela lhe dava pipocas na boca. tomou consciência de que ambos estavam nus e sentiu-se tão feliz e completo como há quanto tempo não sentia, sendo atraído para aqueles olhos verdes que o questionavam o porquê de tamanho estranhamento. ela sempre tão sensitiva, perguntando: "o que está acontecendo, xú?" e ele lhe respondendo que nada e a abraçando ainda mais. agradecia o abraço quente, agradecia o fato de tê-la encontrado e temia a separação que de algum modo sabia que iria acontecer. queria eternizar aquele momento e já não sabia o que estava acontecendo se era sonho, lembrança, devaneio ou dèja vu. só sabia que aquilo que tinha acabado de viver - porque era uma vivência, ninguém poderia lhe negar isso - era a maior traição que já tinha cometido. e então sua companheira apareceu perguntando:
"ei, mas o que houve? eu já tomei banho e me troquei e você aí parecendo uma estátua, no mesmo lugar que te deixei."
 
ele demorou para perceber onde se encontrava, a cozinha, a mesa, sua mulher pondo água no copo. ele olhou-a por cinco segundos, com medo que aqueles olhos castanhos pudessem adentrar sua alma e ler seu pensamento. ou desejo. ou sonho. será verdade? só sabia que aqueles olhos não eram verdes. e que talvez nunca compreendessem o que lhe ia no coração. quando deu por si ainda tinha a faca com manteiga e o pão em uma das mãos.

2 comentários:

Gabriela Freitas disse...

Esses devaneios. Por que nem todo amor vira amor pra toda vida?

http://www.novaperspectiva.com/

Livre Espontanea Leitura disse...

Adorei o blog, viu? É lindo! Parabéns!

Estou passando também para divulgar meu blog literário:

www.livreeespontanealeitura.blogspot.com

Aguardo sua visita!
Espero que siga e goste do blog =)
Beijos!