quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

são as partes que partem você em uma parte

A primeira vez que eu assisti Loucamente Apaixonados eu não era uma pessoa inteira. De alguma forma, eu havia entregado metade de mim (provavelmente a melhor!) para outra pessoa e não conseguia de nenhuma forma reaver aquele pedaço. E eu não podia nem dar a desculpa de que não sabia que aquela metade era tão importante. Eu não podia dizer que não sabia o que estava fazendo. Eu sabia exatamente o valor daquele meu pedaço, sabia os riscos que corria e ainda assim o entreguei para outra pessoa que me prometeu fazer o mesmo, mas não fez. Doeu.

Lembro que eu estava em casa em uma tarde chuvosa com a minha irmã e ficamos procurando feito duas desocupadas que éramos um bom filme para assistir de graça pela net. Tentamos um muito ruim, e quando começamos este quase desistimos, porque ele não tem nada de convencional. Ao contrário da maioria dos filmes este era extremamente real. Eu conseguia sentir a dor de Anna e Jacob com uma intensidade tão grande que fui às lágrimas uma centena de vezes mexida por tamanho amor. Ou falta dele. De alguma forma eu me vi na pele, nos gestos, no romantismo e principalmente na entrega de Anna. Ela era eu e lembro que à noite eu me perguntava quem era o diretor daquele filme e quem o havia escrito, pois eu precisava falar com aquela pessoa. Eu precisava dizer! Entender o que tinha acontecido e quem foi que arrasou o coração dela daquela forma para que ela tivesse conseguido escrever um filme tão incrível – só quem tem uma metade entregue e quase perdida conseguiria escrever um filme daqueles.








Em determinado momento do filme, Anna fala sobre “as partes que partem você em uma parte” e eu pensei em quantas partes nós não somos partidos ao longo da vida! Quantas vezes a gente não pega um pedacinho de nós e entrega na mão de pessoas que conquistam nosso amor sem nem fazer tanto esforço. Saímos pelo mundo entregando pedaços nossos como peças de um quebra-cabeça - quem leu Coisas que Ninguém Sabe me entende – sem pensar no tamanho do esforço que vamos ter que fazer caso quisermos aqueles pedaços de volta. Não pensamos ao entregar estes nossos pedaços. Também não há modo seguro de evitar. Fechamos os olhos e nos entregamos pra pessoas aleatórias no mundo que irão fazer o que quiserem com aquelas partezinhas sem nunca devolver. Ainda que a gente implore. Mais que isso: mesmo que elas os rejeitem.

E o jogo é esse, você não sabe se ganha ou se perde nem no minuto logo após o ter entregado, nem mil anos depois. Pode ser que você perceba a burrada no segundo da entrega, pode ser que você não se arrependa nem trinta anos depois. E ainda que você não queira, participa dessa dança de peças de quebra-coração ao redor do mundo, recebendo e entregando, aceitando e rejeitando, num malabarismo sem fim.

Existem os mais afortunados, aqueles que não só entregam as peças certas como também recebem uma quantidade perfeita e querida que preenchem o quadro da vida. Infelizmente há quem entregue muito, erre o endereço e ainda receba pouca coisa de volta. É a vida.

E hoje pensando no punhado de mim que já entreguei por aí não cheguei à conclusão nenhuma. Aliás, só uma. Ainda que eu não consiga arrancar nada para entregar a quem minha razão indica que claramente mereço, ainda que eu tenha dado uma metade a quem a colocou na gaveta, ainda que eu tenha enviado pedaços a quem nem neste mundo mais está... eu sobrevivo. Pode ser loucura compreender que jamais vou conseguir ser inteiramente completa, mas é muito bom perceber que dá pra ser feliz assim.

8 comentários:

Lê disse...

Que texto lindo!!!

livroseoutrasfelicidades disse...

Lindo! Um modo muito poético de falar dos encontros e desencontros dessa vida :-)

Anna Vitória disse...

Flá, eu acho que a gente só se completa quando espalha nossos pedaços por aí, sabe? E eu digo isso com a consciência de uma pessoa que tem uma dificuldade extrema em se partir pros outros, sou uma pessoa que acha difícil demais se entregar. E mesmo que, depois de muito custo, alguns pedaços meus tenham se perdido por aí pra nunca mais voltar, é muito melhor viver sem eles do que continuar inteira, mas sozinha.
E esse filme </3
Beijos!

Suzi (Vulgo, Emilie) disse...

Hmm... Só faltou dizer o nome do filme! Haha. Mas, ok. Tem coisa demais nesse texto pra gente se preocupar com o filme. Olha, o curioso da vida é que a gente nunca vai saber se aquela pessoa vai nos magoar ou nos amar na mesma proporção. Vamos dizer que a gente aposta pensando que vai ganhar. Infortunadamente, alguns perdem e outros ganham. Difícil acertar a roleta da felicidade amorosa.

Borderline Transtorno de Personalidade disse...

Você escreve muito bem!

Renata Bittes disse...

Acho que não tem como viver sem se repartir em mil pedaços. Nesse último ano tentei ficar inteira e acabei sozinha. Aprendi que tenho que me desdobrar e aprender a perdoar tb.

Muito bom ler noticias suas.

Em setembro me caso! Dai qnd voltar de lua de mel já irei direto pra São Paulo, em outubro.

Quem sabe a gente marca um café, algo assim?

Bjs

Kamilla Barcelos disse...

Que texto incrível, Flá!
Gostei muito e nunca tinha pensando assim. E realmente, a gente distribuindo nossas partes, e muitas vezes não recebemos de quem queremos, muitas vezes não recebemos de volta.
Quero ver esse filme!

Gabriela Couth disse...

Ia comentar um monte de coisa, mas aí lembrei dessa tirinha, e resolvi deixar ela aqui.

http://pudding.tumblr.com/post/74854781136/madeleineishere-here-is-a-comic

Viu?

Beijo!