quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

amor feliz

ela já tinha desistido do amor.

viveu tantos anos num planta e colhe de dissabor que a decisão de nunca mais procurar por alguém veio simples, calma e sorrateira. quando menos esperava já passava os dias se dedicando aos filmes de suspense (e não mais aos romances), já não lia mais livros de drama e não suspirava ao ver casais felizes atravessando a rua. foi uma prima que um dia lhe disse: "assim você vai ficar pra titia, todo mundo precisa de alguém." a mesma prima que meses antes foi enfática ao dizer que homem nenhum merecia atenção e que pra ser feliz, não era preciso morrer de amores, não. ah, a vida! ah, as pessoas! 

tinha passado meses desejando alguém. era uma companhia tão triste e solitária a sua própria! vivia fechando os olhos e imaginando rapazes, ouvia canções, imaginava declarações de amor em cartazes, sabia as qualidades e defeitos desse amor perfeito que chegaria logo, que havia nascido predestinado, a tampa da panela que ela sempre foi. mas ele nunca chegava, e com o tempo havia decidido mentalmente que talvez nunca chegaria. triste, destino, será que ele sequer existia?

decidiu que precisava andar na praia. sentir o chão do mar disforme, o frio das ondas fortes batendo nas costas. não tinha nada de especial naquele dia, a não ser o fato de que a chuva resolveu aparecer justamente no fim da estrada, quando ela já via o mar confuso pelo pára-brisa. e era pensando nisso tudo, andando sozinha com a garoa fina de companhia, que ela estava quando ele apareceu.

foi quase um susto. estava contando os passos, vagueando pelas conchas na areia quando enfim ergueu os olhos e o viu. barba por fazer, camiseta branca molhada, um chinelo na mão e uma altura de surpreender. ele era alto! parecia ser um homem feliz. em nenhum momento cogitou que fosse ele, não passou pela sua cabeça a ideia absurda de que ele pudesse parar e conversar com ela. as pessoas não fazem mais isso. mas ele fez. 

chegou a passar por ela num primeiro instante, enquanto ela ainda pensava no quanto os homens de barba se tornaram interessantes com o passar da idade, mas então ele voltou. pediu desculpas, se apresentou. perguntou que tipo de mulher sai pra andar na praia mais desconhecida de São Paulo em dia improvável de chuva. qual era o seu nome? o que ela fazia? gostava de cachorros? queria ter filhos?

não tinha ninguém conhecido na praia pra testemunhar, mas aquele encontro marcaria uma vida de borboletas no estômago, manhãs felizes, brigas esporádicas por motivos ridículos, felicidade na gaveta, uma casa naquela enseada, beijos e noites de tirar o fôlego, duas filhas. ali começava um amor feliz. 

11 comentários:

Ana Luísa disse...

Por favor, manda isso aí pra minha vida? Um amor assim, de repente, cheio de beijos e com duas filhas é tudo o que eu sonho na minha vida!! HAHAHAHAHA Ai Flá, eu não tenho conserto!
Te amo!

Anna Vitória disse...

Ai Flá, também quero isso na minha vida!
Adorei o texto, assisti tudo na minha cabeça como num filme! Precisamos desses amores de surpresa na praia em um dia de chuva, né? <3
beijos!

Milena M. disse...

Que texto desleal! Agora vou passar a noite sonhando que você escreveu num momento de iluminação em que soube que isso era a sua vida, a da Nalu, a minha e a de quem mais quiser.
Duas filhas incluídas.
Beijo! <3

Gabriela Freitas disse...

Ai que lindeza, tão bonito quanto o amor nasce assim: de um encontro por acaso.

http://denovomaisumavez.blogspot.com.br/

Bruna Gabriela disse...

Muito lindo isto.
Borboletas no estômago são sempre bem vindas, principalmente em momentos inesperados e marcantes.

livroseoutrasfelicidades disse...

Que lindo. Romântico na medida.

Chapeleira Maluca disse...

Eu quero viver isso, posso? Que texto lindo! Adorei e me identifiquei com o primeiro trecho. Parabéns pelo blog :)

coelhosdechapeu.blogspot.com.br

Mª Fernanda Probst disse...

Uau menina! Que acaso mais lindo *,*

Larissa Bello disse...

Ainda estou na fase dos filmes, que aliás me são ótima companhia! Já conhece o meu blog de cinema? http://cineemfoco.blogspot.com.br/


Bjos!

Kamilla Barcelos disse...

Que coisa maravilhosa! Quero tudo isso: borboletas no estômago, beijos e noites de tirar o fôlego: um amor feliz!

Bárbara disse...

Amei Amei Amei.

borboletas no estômago! é tão bom, desde que seja nessa medida gostosa e leve...