domingo, 1 de setembro de 2013

nos descompassos que eu crio

eu fico criando situações ilusórias de encontros inesperados com você na rua.

são diversos os locais e as possíveis conversas e reações. em uma delas eu te encontro em um corredor de supermercado e a gente demora para se reconhecer. mas aí quando isso acontece a gente não sabe muito o que fazer, você desvia o olhar e eu não sei se coloco a bolacha de volta na prateleira ou se enfio dentro do carrinho. e então eu sorrio e te cumprimento, sem abraços ou intimidade e você acaba ficando ainda mais sem graça do que eu, querendo fugir deste encontro inesperado e maldizendo eternamente o fato da sua mãe ter te forçado a buscar alguma coisa no carrefour. eu pergunto sobre ela com naturalidade, pergunto como você tem passado, como anda o seu trabalho e como anda a valentina, com quem ela se parece e se já está reconhecendo as pessoas. você vai ficando meio bestificado com a minha naturalidade e honestamente, eu também. você não consegue acompanhar meu jogo de cintura e me pergunta sobre minha família sem prestar uma só atenção para a resposta. e então eu mando um beijo para todos aviso que tenho que ir e saio sem jeito pelo outro lado do corredor. 

há uma segunda opção. eu te encontrar no meio da rua e você fingir que não me vê, desviando o olhar e continuando o passo. e então eu volto e te pego pela mão, te forçando a parar. você fica com muita raiva da minha ousadia mas não vai embora e acaba escutando uma avalanche de perguntas. eu te pergunto: como você pôde fazer isso comigo? como você consegue acordar todo dia sabendo que foi responsável por um dos maiores desgostos na vida de uma pessoa? como você faz quando toca cazuza no rádio? tudo aquilo que a gente viveu eu vivi sozinha? como você simplesmente não foi capaz de me ligar pra pedir desculpas!? podia ter sido um simples bilhete, um e-mail ou até mensagem de texto! você não sente minha falta nunca? quantas vezes aquilo aconteceu? há quanto tempo você já não me amava o necessário? e por fim: você me esqueceu completamente? eu me desespero enquanto eu faço essa pergunta e algumas lágrimas escorrem enquanto eu faço esse pequeno show, mas eu em nenhum momento choro. sinto vontade de te abraçar e dizer que te perdoo, mas ao mesmo tempo tenho vontade de te machucar pra valer, pra deixar marca, pra você não se esquecer. 

em todas as opções de reencontros ilusórios - e são inúmeras, e aparecem quando menos espero, quando estou fazendo a chamada das crianças, por exemplo - eu fico esquisita. e não só na ilusão, mas quando penso nelas, ali, fisicamente. meu coração bate desnorteado não sabendo se continua ou se simplesmente para. 

8 comentários:

Ana Luísa disse...

Flá, você me deixa nervosa, porque amo demais e não sei o que comentar. Sonho com tantos encontros e reencontros... <3

Larie disse...

Ai Flá, que dor. Ficar imaginando esse tipo de reencontro é horrível mesmo.

Quando eu levei o meu primeiro fora (alô, depois dos quinze), achei que fosse morrer e demorei cerca de um ou dois anos pra esquecer o cara de verdade. Eu passava por ele na universidade e meu coração acelerava, mas eu o deixava passar direto. Até que um dia eu resolvi pará-lo no meio do caminho e perguntar como tava a vida e ele disse: "tá boa demais, tô atrasado pra aula, tchau". E foi nesse dia que eu saí correndo direto pro banheiro para chorar como nunca havia chorado antes num lugar público. Depois desse dia, eu resolvi que devia abrir meu coração para viver algo diferente com outra pessoa e assim foi. :)

Eu acho mais provável a segunda opção nesses tipos de reencontro, sabe. Eu sou completamente emotiva e me desestabilizo muito fácil. Não sei manter as aparências. E eu nem sei se eu quero.
Tenho uma amiga que diz que eu me humilho muito expondo o que eu sinto pros outros, mas eu prefiro que saibam que me machucaram do que ficar espalhando sorrisos falsos enquanto estou estilhaçada por dentro.

Beijo, flor! Você vai superar. <3

Bruna Gabriela disse...

Nossa.
Doeu.
Eu não sei como falar isso, porque esquecer pessoas não é fácil, não é legal; principalmente quando ela deixa marcas que ainda machucam.
O jeito é te dizer pra ir em frente, tentar não pensar; mesmo que eu saiba que essas palavras são idiotas e não te ajudarão muito.

Força e fé funcionam.
E tudo passa.

Ex-Princesa. Agora, Plebeia. disse...

Escrevi um comentário enorme, mas apaguei. Talvez pela falta de intimidade, por ser a primeira vez no teu espaço, sei lá..

Mas olha, sinta-se abraçada por mim.
Voltarei.

Larissa Bello disse...

A coisa mais difícil para todos nós é compreender o quanto o apego nos faz mal. Temos uma tendência natural (principalmente a nossa cultura ocidental) de sempre termos um enorme apego a pessoas, coisas, histórias. Enfim, no final das contas precisamos entender que o apego em si já é uma grande ilusão, porque tudo na vida é efemêro, inclusive nós mesmos.

Bjos!

Aline Netto disse...

Oi Flá,
Seus textos continuam lindos e tocantes!

Se tiver um tempo passa lá no blog!

Bjs
Aline Netto
http://www.devaneiosdemadrugada.com.br/

Ana Flávia Sousa disse...

Engraçado que no passado vivi situações assim, desse jeito que descreveu. Encontros, no meu caso, inesperados, que antes causavam um furor na barriga, mas que passaram e que bom que passaram.
O presente foi bem mais generoso comigo.

Beijão.

Daíse Lima disse...

Porque eu sei bem como é isso: "eu fico criando situações ilusórias de encontros inesperados com você na rua.", amei todo o texto!!!!
Beijão!!