sexta-feira, 5 de julho de 2013

descompanhia

ela tinha muitas horas para preencher.

durante um tempo infindável foi exatamente isso que ela mais desejou para si. ter horas enormes para poder completar do jeito que melhor quisesse, para fazer o que na telha viesse, para se fazer companhia. ela não só queria como tinha a certeza do que iria fazer com cada um daqueles minutos. enamorar-se de si. ter a liberdade de deitar a cabeça num travesseiro e só levantar quando bem entendesse, ler páginas e capítulos de livros até que o dia amanhecesse, assistir filmes e episódios de seriados até depois do anoitecer. ela tinha esse poder se ver no futuro e em sua imaginação constuía cada segundo daquelas férias, daquela imensidão de si. e então as horas ficaram longas.

mais que longas, compridas, enormes e infinitas. sim, ela conseguiu deitar a cabeça no travesseiro e levantar tarde, conseguiu ler e ler páginas e páginas, se permitiu assistir filmes, séries e até realities até o meio da madrugada. e foi justamente em uma delas que ela parou e pensou. "e agora?" o que vinha depois? depois de esvaziar seu corpo com todos os desejos materiais e dar à ele toda sorte do descanso, ela se viu frente a frente, talvez pela primeira vez em muito tempo com o que ela realmente mais queria e não se permitia ver. porque nós somos assim, levamos a vida no piloto automático a maior parte do tempo mas é quando a vida nos força a conduzir no velho e tinhoso jeito manual é que percebemos se sabemos ou não sabemos dirigir. e ela não sabia. pelo menos no que dizia respeito à sua própria vida ela não tinha certeza e mais do que isso, ela tinha medos. algumas lágrimas brotaram quando ela viu pela sombra do quarto que mais de um, seus medos formavam grupos e eram muitos, inúmeros, absurdos e completamente maiores do que ela. enumerou-os e nomeou-os um a um, medo do insucesso, medo da liberdade, medo do futuro, medo da memória pelo passado, medo dela. 

mas foi do medo que não aparecia na parede que ela mais se aterrorizou, pois mesmo quando ela se enfiava debaixo das cobertas, mesmo quando se abraçava com força, mesmo quando cobria com as mãos os olhos, mesmo quando ela os fechava de supetão ainda assim o via, ainda o enxergava. e além disso o sentia, sua presença gélida e fria achando lugar em sua alma, sua áurea tão abstrata e ao mesmo tempo vazia, lhe tirando a calma. pediu a Deus que o levasse embora, "vai sai de mim bicho ruim", "tem dó de mim anjo bom" e antes de ver o sol raiar pela janela conseguiu pensar tão alto que quase saiu som: então é isso que chamam de solidão. 

5 comentários:

Meu canto meu mundo disse...

Amei o texto, está super perfeito!
Bj

mundodeariel.blogspot.com/
www.facebook.com/meucantoomeumundoo

Amanda Tracera. disse...

Flá, tô dando uma passadinha aqui só pra dizer adorei o seu blog (e inclusive comecei a seguir) e a sua escrita, além de você ser um doce de pessoa. HAHAHA Beijo grande! :*

Tallita Monteiro disse...

Olá...que texto mais lindo....um aconchego de palavras....

seguindo!!
bjss

Bruna Gabriela disse...

Triste.
Então é isso que é a solidão. Tenho mais certeza de que isso nunca quero.
Foram fortes e intensas suas palavras.

Jéssica Teles disse...

E graças a sua indicação, Mumford and Sons agora faz parte da minha playlist e eu estou amaaaando ♥
Obg Flá :)

beijo, beijo!

Goiabasays