terça-feira, 28 de agosto de 2012

eu quis te dizer mas não disse


sonhei que seu pai morria.

era o velório dele, você acredita? e eu não conseguia imaginar, não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo. eu dirigia o carro e pensava: putaqueopariu eu desfilando nesse carro vermelho, que vergonha, quevergonha, todo mundo de luto e eu de carro vermelho. fazendo anotação pra da próxima vez acabar escolhendo um preto. você tinha os olhos inchados e chorava, as bochechas rosadas. tão lindo, todo de preto, encapotado. você sempre ficou lindo de preto, mas a verdade é que minha opinião deveria ser nula, eu sempre babei em você de qualquer jeito. e então você estava acompanhado e eu era uma semi-intrusa naquele lugar, não ocupava mais o lugar de nora, eu era uma outra. talvez uma outra qualquer. e no meio do sonho isso me incomodou, porque naquela realidade aquilo era normal, mas para mim isso nunca será. mesmo quando eu estou dormindo e meu (in)consciente me leva, eu tenho essa posse absurda de maluca por você. mas então você me via e vinha correndo deixando a moça sem rosto e sem gosto lá aos pés do caixão. você sorria pra mim enquanto a lágrima caía e a dor que eu senti foi real, no sonho e aqui. eu quis te levar pra casa e antes que eu pudesse te perguntar você me pediu "me leva embora daqui?".

eu não vi mais ninguém, eu não cheguei a ver seu pai mas sei que era ele ali. e enquanto eu dirigia e alguns fios de cabelo me caíam no rosto (meu consciente foi fraco nesse aspecto, acho que eu nunca iria com aquele coque desmanchado) eu pensava, meu Deus tão jovem, como você foi tirar ele daqui? e eu não sei se o "ele" que eu pensava era seu pai ou você. e aí enquanto eu dirigia você colocava a mão em cima da minha enquanto eu trocava de marcha e eu já não sabia pra que casa que eu te levava e então parei numa praça e pulei pro banco de trás. você veio junto, deitou no meu colo enquanto eu ninava aquela música e chorava lágrimas de tristeza e silêncio profundo, você apertando minha outra mão. foi um sonho horrível um pesadelo dos ruins, mas a pior parte, olha que egoísmo o meu, foi achar que eu não era mais sua. e a melhor parte, adivinha, foi perceber que de qualquer forma, no fim eu era sua, e você era meu. foi perceber que em todas as camadas de mim (derme, epiderme, alma, corpo, espírito, consciente, inconsciente) eu te amo pra valer.

12 comentários:

Gabriela Freitas disse...

Que sonho triste Flá, bem, pesadelo né? :c que péssimo, o final que foi, entretanto, menos pior, afinal, mostrou que mesmo quando parecer acabado a história de vocês ainda terá espaço para outras e novas palavras.

Luciana Espejo disse...

Oi Querida! Tudo bem? Estamos ótimos: é um meninão! Só a correria que está em dobro! Muitas coisas acontecendo tudoaomesmotempoagora! Beijos e beijos!

aline disse...

nossa, parece que eu consegui enxergar tudo isso. até me arrepiei!

que coisa mais dolorida, mas sentida...

Ana Luísa disse...

Gente, pesadelos são ótimos. Porque eles acabam, e de repente, você acorda! E como é bom perceber que era só um pesadelo! Eu adoro a sensação de acordar de um. É um alívio tão forte..
Mas esse final foi maravilhoso! E é real! Beijos! <3

Thais I. disse...

Eu gosto do seu blog porque me mostra uma coisa que há tempos não consigo retratar: o bom do amor.

Drêycka disse...

Nossa!
Que lindo Flá! Fiquei até sem palavras. Achei tão cru e real. Arrepiei.

Bjs!

Retrato em Branco e Preto disse...

Sonhos assim me fazem acordar chorando, mas o seu foi diferente. São nos momentos de dor que o amor se mostra mais vivo, mais forte..

Texto lindo!
Um beijo Flá!

Fernanda Pires disse...

Lindo texto, e triste também! Me emociono muito com esses textos. Um beijo

Marina Melo disse...

texto incrívelll!!!
Fã número 1! hhahah

Nathália Souza disse...

''foi perceber que em todas as camadas de mim (derme, epiderme, alma, corpo, espírito, consciente, inconsciente) eu te amo pra valer.'' você escreve de um jeito que me cativa, olha que coisa linda!

Luciana Brito disse...

Nossa!
O sonho por si só já foi complexo, mas o final do texto foi mais ainda. Essa coisa louca de pertencer e não pertencer acaba deixando a gente meio maluca mesmo... adorei.

Camila Marques disse...

Caramba, amei! É muito triste, mas a maneira como você retratou o amor foi impecável! :´)