sexta-feira, 29 de junho de 2012

filosofia de padaria


foi num farol demorado por conta de um acidente que eu o vi. 

tive uma mistura de compaixão, carinho, dó e reciprocidade, assim tudo misturado. ao mesmo tempo. eu no carro, fim do dia, louca para chegar em casa enquanto ele permanecia de pé, uma espécie de toca na cabeça, as mãos oscilando entre o ritmo frenético e o desorganizado. a padaria ainda estava cheia, dez e cinco da noite, os fogos de artifício pipocando em cada trecho da cidade, eu com o rádio ligado escutando o narrador dizendo "então é isso, dois minutosdoprimeirotempo. ainda temos 90 minutos de sufoco é o momentomaisimportantedahistória deste time" daquele jeito rápido que só os narradores radialistas conseguem falar (será que há curso?), e notei que ele tinha um fone na orelha esquerda. com ela escutava o momento mais importante do seu time, com a direita atendia os pedidos dos clientes, os quais eu não ouvia, mas suponho que eram "mais um misto quente!"; "uma porçãozinha de batata!"; "me vê mais uma coca-cola!". ele sorria encabulado e se empenhava na tarefa. parando pra olhar mais um pouco, percebi. não eram só as orelhas, assim permaneciam os olhos também: um cá outro lá. um na tv pequena que ficava no final do canto esquerdo da padaria, outro nas obrigações, no misto, na batatinha, na coca-cola. era um homem dividido entre a obrigação e a paixão. quase que eu conseguia ver o rasgo que ia dentro dele, da divisão do dever e do ter que. quantos de nós, pensei. quantos de nós! o tio da padaria era a metáfora perfeita para a nossa vida que nos divide, nos racha ao meio entre o ter que e o querer. entre a tarefa e a vontade. entre o sadio e o gorduroso. entre o bem e o mal, enfim.
besteira, você pode dizer. era só uma quase-final de campeonato. mas quantas vezes você já se deparou com um dilema que só você poderia compreender? quantas vezes você oscilou entre a lição de casa e a saída com as amigas? a razão e o coração? o medo e a coragem? e quantas vezes você fez o que não queria, o que morreria pra não fazer, simplesmente porque deveria ser feito?

filosofia de butequim, talvez. neste caso, de padaria.   

12 comentários:

aline disse...

ah, todo dia! todo dia eu vivo isso aí...

Emylle Melo disse...

Vivo quase sempre assim, essas dúvidas do cotidiano.
Adorei o texto!

Bruna Gabriela disse...

Vivemos entre um dilema: Viver ou deixar que o tempo nos leve!

Larie disse...

Estou vivendo nesse limbo, sabe, Flá? É uma rachadura que está se alastrando dentro de mim e já não sei pra onde correr (se é que tem algum lugar).

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Você tinha me perguntado se eu estava bem devido ao acidente, pois então, estou sim! Dia 11 já vou poder colocar o pé no chão!! *-*
Obrigada pela atenção. :)))


Beijo :)

Lu disse...

E bota filosofia nisso, quem nunca teve que viver uma filosofias dessas que atire a primeira pedra. Adorei. Bjos, e bom fds.

Juliana Caulo disse...

aaaah, amei esse texto. Adoro fazer esse joguinho com frases já prontas. Beijos

Rita disse...

Muito obrigada querida:)
Podes enviar-me o endereço do "Sobre Fatalismos" ?

mafalda. disse...

adorei o texto!

Stella Rodrigues disse...

A dúvida é cruel, mas permanece sob os menos avisados, os inteligentes fazem a escolha certa, os amantes, quase sempre a errada e os poetas escrevem sobre isso.

รяª Nathalia disse...

Ha... eu vivo oscilando sempre e sempre.

Gostei daqui, ti sigo.

del disse...

Eu AMO esse tipo de filosofia. É na vida cotidiano que os melhores pensamentos (e descobertas) se escondem! Às vezes acho cruel essa divisão que o sistema nos impõe. Abrimos mãos de tantas coisas, tantas paixões, a troco de quê? Sabe, eu adoraria conversar com o atendente de padaria pra saber de sua história e inspirações :)

Gabriela Freitas disse...

Tem dilema mais difícil do que escolher entre o querer e o ter...
mas acho que no fim, o tio da padaria soube bem lidar com esse dilema.