quinta-feira, 21 de junho de 2012

desaforos


tem um quarto no final do corredor de sua casa com uma plaquinha onde se lê "desaforos".

a ideia surgiu depois que percebeu que sempre os levava para casa. por dia, chegavam a ser dois, três, sempre mais de um. não dava mais para deixá-los espalhados por ali. as vezes encontrava-os em cima da mesa do jantar, pendurados na torneira do chuveiro, amarrados na escova de dente. pertubavam-na ainda mais quando se espalhavam em cima da sua cama, deitando em seu travesseiro, roubando seu sossego espalhados no chão em que ela tropeçava e acabava ruminando sua existência. era sempre assim: o ato de levá-los para casa sempre acabava fazendo com que ela se perguntasse o que teria feito se os tivesse despachado no meio do caminho. olhando para eles se perguntava com uma frequência fora do normal "por que não disse isso? por que eu não respondi aquilo?" e as palavras que lhe faltavam na hora surgiam ali na sua casa com uma facilidade tamanha, só ao olhá-los de relance, desorganizados por ali. foi aí que teve a brilhante ideia de armazená-los em algum lugar, que os mantivesse fora de sua vista, para que pudesse ser feliz. começou comprando uma caixinha de papelão, pulou para uma caixa grande de plástico, e acabou comprando um baú enorme. ainda assim o espaço não fora o suficiente. lembrou-se do quartinho no fim do corredor onde jogava bugigangas e decidiu-se por lá. levou todos, um por um, com uma facilidade descomunal. de vez em quando ainda joga por lá alguns sapos que engole no meio do caminho, e ficou estarrecida em quanta coisa os desaforos e os sapos têm em comum. esses dias até ficou com uma dúvida: estariam os dois juntos procriando? dúvida esse que surgiu depois de entrar no quarto para despachar o mais novo desaforo e deparar-se com uma quantidade curiosa de desaforinhos com patas de sapo pulando em volta do quarto. mas aí não deixou-se abalar e trancou a porta em paz, com um sorriso no rosto, batendo as duas mãos como quem limpa farelo de bolacha. deixando-os ali ao canto, naquela espécie de criadouro, era magnificamente e surpreendentemente feliz.

ps: o post passado foi uma surpresa muito agradável amigas leitoras. perceber que não sou a única que navega nas mesmas águas de escassas mas importantes amizades, foi muito reconfortante! beijocas.

12 comentários:

aline disse...

você me deu uma ótima ideia. acho que vou alugar um galpão pra guardar os desaforos e sapos que tenho levado pra casa. e olha, que eu não costumo levar muitos, mas os que eu levo são grandes e pesam toneladas.

quanto ao seu comentário: acredito que um pouco do que invento passa a ser parte das minhas verdades. nem tudo me acontece, mas o que me acontece tem sabor de palavras e correndo prum bloco de notas. tem hora que eu exagero. tem hora que escrevo as minhas conversas com o espelho. tem hora que eu simplesmente narro o que eu queria que tivesse acontecido.

me escreve, adoro receber e-mails.
alineruizm@gmail.com

um beijo!

Renata Bittes disse...

Ah, que lindo Flá! Eu adoro como vc usa metáforas para a vida. Queria ver as coisas de uma maneira assim, mais mágica. Sinto falta dos nossos e-mails. N ando 100%. Jornalista desempregada resume meu estado de espírito =/

Bjão!

Luana disse...

Que ideia!

Vou arrumar um canto aqui em casa só para isso.

Bjs

Ana Luísa disse...

Vish Flá, eu sou das que engolem desaforos. Aqui em casa também deve ter um cômodo secreto só pra eles...

Monique disse...

Deus me livre de guardá-los em casa. Prefiro levá-los para passear e os enganar enquanto fingo que vou ali e volto rapidinho.

Bruna Gabriela disse...

Amei a ideia para o desaforo... Assim a gente para de descontar em outras pessoas, ou de guardar dentro da gente.

ótimo texto!

Tary ♥ disse...

Ah, Flá, eu tento trazer desaforos pra casa, não. Sou doce apenas com quem merece, sabe? Mas essa é uma boa ideia para aqueles que a gente acaba levando. Melhor do que guardar e depois explodir em quem nada tem a ver com a história.

beijo!

Renata disse...

Sabe, também sou dessas que chegam em casa e pensam esse tipo de coisa. Mas acho que me seria mais útil criar coragem no comodo vazio da minha casa.

Sapos e desaforos não, eles são tão ruins de engolir, e além disso nem servem para matar sua fome no jantar.

Aqui é tão bonito, voltarei mais vezes.

Camila Mancio. disse...

Amei o blog, sério.

Bárbara disse...

Amiga, descobri que consigo comentar rsrsrs! Adorei o texto...e realmente, não é fácil engolir sapos, ainda mais alguns sapos especificos. Mas as vezes é preciso engolir e tocar em frente...certas coisas não merecem...

beijo beijo.

adoro passar por aqui!

Nat Souza disse...

Sou sua fã exatamente por esse dom de usar tão maravilhosamente bem as palavras! E que tranque-se a porta, inteiramente em paz.

Emylle Melo disse...

Adorei!
Pensei nos desaforos e em como sempre ficam me perturbando ao longo do dia, seria tão bom poder deixá-los assim tão facilmente, eu vou guardando até que consigo me livrar deles dando umas palavras bem mal criadas para quem me fez ficar desse jeito...mas nem sempre consigo então o jeito é desabafar em palavras.
Adorei de verdade sua metáfora.