sexta-feira, 1 de junho de 2012

carta à coragem

nunca vou me esquecer daquele dia.

eu não tinha absolutamente nada de bom para fazer e acabei me decidindo por pegar o controle remoto e ficar zapeando na tv. foi quando eu te vi, ali, com a câmera na mão, sentada numa poltrona e de roupa branca, canal 21, gnt. não me pergunte o nome do programa, pois não vou saber responder, mas logo de cara o seu brilho no rosto e sotaque paulista gostoso me fizeram parar. você falava sem cerimônia que havia se formado em direito por uma das melhores universidades do país e que logo depois de formada havia sentido um vazio enorme, mas que seguiu seu caminho. estudou ainda mais e advogou por quase 20 anos, sempre acompanhada do tal buraco que lhe preenchia a alma. até que, certo dia, aos 42 anos de idade, ao ver as fotos de casamento de uma conhecida você sentiu o buraco ruir.
lembro que foi exatamente essa frase que você usou: o buraco que morava em mim ruiu ali. de repente, algo dentro de você começou a gritar tão alto que você chegou a ficar zonza, teve vontade de chorar e de correr. você queria ser fotógrafa. sempre quis. adorava tudo que se relacionava à ela, a magia da recordação, os ângulos, achava lindo. mas havia reprimido tudo dentro de si. mas ali, vendo aquelas fotos, você percebeu que não aguentaria mais sustentar a farsa. meteu-se num curso rápido e meses depois, deixando comentários e queixos caídos a cada esquina, já havia abandonado as saias, o salto alto e a papelada pela máquina canon, sapato baixo e sorrisos. aos 42 anos, casada e com filhos optou por se encontrar e permitiu-se ser verdadeiramente feliz. 
eu me lembro direitinho do seu rosto, das unhas vermelhas e principalmente da sensação que você me presenteou ali naquele dia. ouvindo você falar sobre a sua vida eu senti: o buraco que morava em mim ruiu ali. eu fiquei tão extasiada, tão orgulhosa de você (veja só!), de tudo o que você tinha feito por si mesma que acabei percebendo que mais dia, menos dia, eu acabaria fazendo exatamente igual. 
foi tão especial pra mim que acabei contando pra todo mundo sobre você: amigas, irmã, mãe, pai, namorado, todos conhecem sua história. foi uma questão de tempo, e uma crise dolorosa, mas ainda nos piores momentos quando eu quase fraquejava, me lembrava de suas palavras: "foi dificílimo na época, a luta mais difícil que já travei, mas a paz de hoje me compensa de uma maneira impossível de descrever". hoje eu sei.
o que eu não sei é seu nome, e olha, eu lamento muito. pois hoje, quando buraco nenhum me preenche e quando vejo que o pior já passou, percebo que eu não teria conseguido sem você. sem ouvir suas palavras de incentivo involuntário, sua força de vontade de brilho nos olhos. tudo que eu queria era pegar essa carta e mandar para você. a-gra-de-cer. mas como eu não guardei seu nome, fecho os olhos e penso em você. a roupa branca, a pele clara, as unhas vermelhas, câmera na mão. peço a Ele que te abençõe e que você tenha despertado (e acabado) com os mesmos buracos, em outros. na ausência de nome, escolhi te chamar de coragem.

meu coração (e alma e corpo e cabeça), cheio, diz no compasso da batida: obrigada! tumtum! obrigada!

13 comentários:

Stella Rodrigues disse...

Que fofa você é.

Bruna Gabriela disse...

Nada melhor do que acabar com buracos.

Amei o post.
Parabéns Flá.

Kamila Behling disse...

Achei um encanto!

Beijos doces!
Fiques com DEUS.

Larie disse...

Poxa vida, taí uma coisa que eu morro de medo, do meu futuro.
Consigo me ver daqui alguns anos no lugar dessa mulher. Veja bem, estudo engenharia na faculdade e estou seguindo o curso ora cambaleando ora achando tudo muito incrível, só que minha verdadeira paixão é "cinema". Louca, alucinada que sou. Pode ser que no futuro eu dê uma entrevista assim, aos 42 anos e mudando do status de engenheira para cineasta em plena satisfação.

Beijo! :)

Larissa Bello disse...

Um amigo meu me disse uma vez: "os nossos limites estão somente na nossa cabeça".

Bjos!

Monique disse...

Você escreve lindamente e faz dessa mesma maneira as descrições. Adorei.

Beijos!

aline disse...

eu não canso de falar que adoro a sua sensibilidade, porque de fato, eu adoro. o seu mundo é tão sensível e tão amável, tão leve e tão doce.
que não existam mais buracos dentro de você, flá. porque você é uma pessoa que só carrega preenchimentos dentro de si.
lindo.

Thay disse...

Mas que graça! Será que dando uma busca no site da GNT você não encontra a Coragem? Acho que ela se sentiria ainda mais realizada recebendo um agradecimento tão bonito quanto esse. Ou, sei lá, talvez enviar um email para a própria GNT... acho que seria especial se Coragem recebesse esse seu texto. Eu, no lugar dela, me sentiria extremamente feliz. :)

Fernanda disse...

Que lindo texto, adorei!
Consegui enxergar cada detalhe dessa coragem! E espero me inspirar muito nessa sua carta!

Amei.
beijo!

Nina disse...

Em algum momento da vida, todos nós enxergamos a coragem de que precisamos. E isso, de certa forma, nos impulsiona.

Vanessa disse...

Tem coisas que tocam a gente de uma forma especial, né? Também acontece comigo! E isso dá uma renovada na alma! Teu texto, doce e delicado como sempre. Beijos

Del Santana disse...

Flá, em primeiro lugar tenho que falar que gosto bastante do seu jeito de escrever. Eu sempre gosto de ler os seus textos, pois sei que vão me tocar de alguma forma.

Gostei demais desse post e fiquei aqui pensando nos buracos que quero destruir.

Beijo

Luciana Espejo disse...

Oi Flá, a Coragem é a virtude que garante as demais. Nada acontece sem coragem. Estou te esperando, pode vir! =)