terça-feira, 15 de maio de 2012

o mistério da casa ao lado


moro no mesmo lugar há mais de dez anos.

praticamente cresci aqui, vendo as reformas transformarem o portão antigo e vinho da minha casa em um automático e branco, os tijolinhos laranja virarem pedras canjiquinha, o piso vermelho cor de barro se tornar um simpático anti-aderente bege. a casa mudou junto comigo e é sempre agradável notar suas mudanças. curiosamente, a casa ao lado permanece intacta: a mesma porta de madeira, o corredor com piso cinza, o portão pequeno sempre aberto, o grande portão grafite com os mesmos ruídos para a entrada e saída de sempre. as pessoas continuam as mesmas, com alguns acréscimos, uma vez que alguns dos meninos cresceram, e grande parte deles já tem suas namoradas. além disso, os filhos dos patronos da casa já se casaram, e já deram alguns netos para aumentar a família. são mais dois meninos. há algo de misterioso dentro dessa casa. as pessoas que moram nela não envelhecem nunca, mantém uma interessante mania feliz de viver, e são muito amorosos e íntimos uns com os outros ainda que se xinguem grande parte do tempo. há música por toda a parte, uma cumplicidade bonita de se ver e uma personalidade mais carismática que a outra, eu não conseguiria me decidir por só um. há festa todo final de semana, há sempre um pretexto para que eles comemorem algo, o jogo ganho, o perdido, o aniversário de um, o casamento de outro. já me perguntei se seria a atmosfera do lugar, já que mesmo os amigos próximos (deles) e desconhecidos (para mim) quando dentro da casa também são contagiados por gargalhadas de perder o fôlego. também já me perguntei se eles cultivam alguma planta específica, a qual utilizam para fazer chá diário, uma vez que da minha janela do quarto posso sempre vê-los com xicrinhas nas mãos em volta da mesa da cozinha. por fim, minha última idéia foi que talvez fosse genético, uma vez que as crianças já apresentam o mesmo comprtamento assim tão novinhas, mas mesmo esse pensamento caiu por terra, uma vez que os cunhados e namorados, os chamados agregados, compartilham das mesmas características. quanto à tal da erva misteriosa, nunca vi nenhuma ali plantada que levantasse suspeita e quanto à atmosfera local: caramba, nossas casas são vizinhas, como não passaria pra cá? 
enquanto fico aqui sentada, digitando essas palavras, sinto uma felicidade no coração ao ouvi-los gritando "ah, fulana vai ver se eu tô na esquina", "ô filho, você fez isso pra mim?", "alguém tira o carro do cicrano pra mamãe entrar?". eu poderia lamentar que a acústica de nossas casas fosse tão boa. mas honestamente? festejo. 

5 comentários:

Gaby. disse...

hahaha que graça voce refletir sobre a casa ao lado.
Qualquer dia desses, vou externalizar o que penso da minha ruazinha sem saída.
è, acho que ao lado há um lar, daqueles que é legal estar ao lado.

Tha'li disse...

Tem pessoas que tem sempre esse sentimento bom. Bem raro também

herecomesmyworld.blogspot.com

Ana Luísa disse...

Gente.. parece a casa da vovó.. a casa da vizinha já foi tão reformada, e assim, a da vovó também, mas a frente da casa da vovó, tirando a cor da parede, não muda desde que eu nasci. Então aquela frente está sempre lá. Com o mesmo piso, o mesmo portão azul, a mesma alegria, e o mesmo amor. Os mesmos netos, só que casando, tendo filhos, e sempre uma criançada só! Delícia!

aline disse...

mas você tem que festejar mesmo, que benção!

Alicia disse...

que caseiro!!!!