sábado, 10 de janeiro de 2009

Era frágil e se quebrou

Me lembro com certa facilidade de um bibelô que minha vó mantinha em uma mesinha de centro. Era uma espécie de bailarina de cristal que cabia na palma de uma das mãos, tinha uma das pernas levantadas e a outra apoiada na ponta do pé. A imagem da fragilidade.
Fui avisada tantas vezes para ter cuidado, que criei um medo enorme daquela bailarina, apesar de admirá-la imensamente à distância. Havia sempre o claro risco de quebrá-la.

Percebi desde então que as pessoas são tão frágeis quanto aquela bailarina, a diferença é que elas não aparentam precisar de tanto cuidado. Tal como qualquer bibelô, as chances de quebra de qualquer pessoa aumentam grande porcentagem a medida que se aumenta a proximidade. A intimidade é como sabonete em bailarinas de cristal.

As relações, descobri há pouco tempo, são ainda mais propensas à danos, e se encaixam perfeitamente naquela história de "é só olhar que quebra". Relações exigem dedicação e fidelidade e com certeza a mentira é um dos maiores agetes quebradores de que se tem conhecimento. A verdade é que por mais que nos esforcemos para reparar as rachaduras, elas estão sempre lá, e são memória instantânea das causas de sua existência.

Quando completei cerca de 13 anos eu já tinha coragem suficiente para me aproximar da bailarina de cristal, e até tocá-la de vez em quando. Em uma dessas vezes, em um descuido bobo, deixei que ela escapasse de uma de minhas mãos e assisti tristemente uma de suas pernas ser quebrada em três pedaços. Colei cada um deles com todo o cuidado que deveria ter tido anteriormente. A bailarina de cristal ainda existe. Está na mesa de canto, atrás de um vaso de flores. E suas rachaduras a acompanham. São fotografia do dia em que a quebrei.

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