terça-feira, 18 de novembro de 2008

Reflexo da reflexão

Eles entraram no quarto e ele jogou as chaves na cabeceira. Enquanto ela se sentava na cama, desconfiando que aquilo não era exatamente o que estava esperando, ele entrou no banheiro, provavelmente também achando que alguma coisa estava faltando. Do lado esquerdo havia uma banheira branca, com hidromassagem. Ele voltou para o quarto, e ela ainda estava na cama, observando.

Tirou os chinelos e sentou-se ao lado dela, testando as luzes, acendendo e apagando assim como fazia com eles, procurando a forma mais simples de realizar seus desejos de felicidade. Acendeu as luzes do canto, apagou. Acendeu as luzes do outro lado, apagou. Acendeu as luzes do centro. Apagou. "Ele sempre apaga" , pensou ela quase que em voz alta. Mas mesmo assim o quarto não escureceu. Permanecia aceso pelas luzes do dia que davam um jeito de entrar pela janela, e ela sempre preferia assim. Secretamente era o jeito que ela o mantinha do jeito como queria. Naquele dia, naquele quarto, percebeu que pela primeira vez as luzes a incomodavam, queria que se apagassem de vez, era como se não servissem naquele momento. Irritou-se com a janela sem cortina. Queria tudo apagado. Na verdade não queria estar ali.

Depois de um tempo em silêncio ele resolveu ligar o som, mas nenhuma música parecia combinar com o momento. Ele as trocou incessantemente, até que ela desligou de vez o som e deitada, virou-se. O espelho no teto não os mostrava por inteiro, ela do lado direito, fingindo olhos fechados a observar os olhos dele postos nela. Deitado do lado esquerdo, virado para ela. "Quem diria?" era a única frase que ela conseguia formular. Finalmente ele se aproximou, e virando-a para si beijou-lhe os lábios. O primeiro beijo do dia. Quanto conhecia aqueles lábios... quanto conhecia aquelas mãos. Quanto tempo não sonhou, a repassar para si os filmes que haviam rodado em todos aqueles anos. Sabia todos de cor, e pela primeira vez não se sentiu como se estivesse gravando a mesma saga. Talvez o começo de uma nova?

Já havia imaginado tantos finais felizes, tantas saídas vitoriosas para aquele amor e agora não o encontrava. Não naquele quarto. Não naquela cama. E onde então encontraria? Lembrou-se de quando não tinham quarto, de quando não tinham cama, de quando não tinham luzes ou música e da maneira como se beijavam, como riam, como se abraçavam, como as mãos se encontravam com facilidade, o que não acontecia? Riu sozinha e o olhar dele a procurou mais uma vez como a perguntar o motivo da graça. Ela se sentou na cama e dessa vez ele perguntou o que estava acontecendo. Ao passo que ela olhou para o teto e viu ali, os dois, os mesmos, tão estranhos. Apontando para a imagem dos dois e disse: "Não está acontecendo, entende?"

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